Segunda, 03 Agosto 2015 13:51

Um ticket para o espaço

pedro nehmeEm entrevista concedida ao Canal Ciência, o mais jovem brasileiro civil que irá ao espaço, Pedro Nehme, 23 anos, conta como estão os preparativos e treinamentos para o voo espacial. Durante a conversa, o estudante de engenharia elétrica da Universidade de Brasília fala da sua expectativa com o voo, de como realizou seu sonho de chegar ao espaço e da importância da popularização da ciência.

O universitário ganhou o “ticket para o espaço” ao acertar a resposta para o seguinte questionamento feito por uma companhia holandesa, em uma promoção mundial: quanto consegue subir um balão de alta altitude preenchido com hélio no deserto de Nevada? A resposta de Pedro - 31 quilômetros - lhe valeu o prêmio para se aproximar mais das estrelas.

Apesar de sua viagem ainda não estar agendada, pois depende da duração do programa de testes do veículo espacial Lynx, Pedro iniciou, este ano, uma série de  treinamentos para a excursão. “Meu primeiro treino foi realizado em março, na centrífuga Phoenix, nos Estados Unidos”, afirma ele.

Durante o voo espacial, o estudante irá conduzir um dispositivo eletrônico compacto e portátil que será desenvolvido pela Universidade de Brasília, Universidade Federal de Santa Catarina e Instituto Mauá de Tecnologia, junto a três instituições de educação básica. O experimento, que está dentro do escopo do Programa Microgravidade da Agência Espacial Brasileira, autorizado pela companhia XCOR Space Expeditions, responsável pelo veículo Lynx Mark 2, deverá ser capaz de avaliar diversos parâmetros fisiológicos relacionados à exposição humana ao ambiente de microgravidade antes e durante o voo suborbital.

Devido ao grande ineditismo do voo no contexto mundial, Pedro mostra-se positivo com os frutos dessa viagem para o Brasil. “Essa será a segunda oportunidade que o Programa Microgravidade disponibiliza para voos espaciais tripulados. A primeira foi com o astronauta Marcos Pontes. Acredito que essa é uma das raras ocasiões de realizar pesquisas voltadas para fisiologia humana em um voo espacial. Nesse sentido, é uma oportunidade ímpar para a medicina aeroespacial no Brasil”, destaca o jovem, transparecendo  alegria pela oportunidade dada a ele de viajar ao espaço.

Ao longo da entrevista, Pedro revela seu interesse pela popularização da ciência e sublinha que a difusão do tema é essencial para que novas oportunidades apareçam. “É fundamental que as atividades científicas que acontecem no Brasil sejam divulgadas, afinal, é a sociedade brasileira que, muitas vezes, financia esse tipo de atividade. A cooperação e troca de experiências sempre fizeram parte do cotidiano científico. Acredito, também, que é muito importante a popularização da ciência. Todos nós presenciamos a ciência desde o momento em que fomos concebidos”.

Para Pedro, a ciência não é um mundo distante onde apenas alguns privilegiados conseguiram chegar, mas sim uma realidade na qual todos estão inseridos. “Podemos viver a vida inteira sem conhecer as leis da termodinâmica, mas todos sabem que devem se cobrir em uma noite fria”, diz o futuro engenheiro, apontando que a formalização do conhecimento é importante, todavia não pode ser barreira a ponto de desanimar as pessoas, principalmente crianças e estudantes, a perseguirem carreiras nessas áreas. Ele destaca, ainda, ser essencial que os desenvolvimentos científicos sejam explicados de forma acessível, para que todos tenham a oportunidade de conhecer as pesquisas realizadas.

Leia na íntegra a entrevista pra lá de espacial.

1) Como surgiu o interesse pelo espaço?

pedro nehme2

Sempre gostei do espaço, desde criança. O espaço é realmente interessante, pelo apelo intrínseco de mistério e imaginação. Eu sempre gostei de montar naves espaciais e olhar para o céu. Desde criança fui bastante estimulado na parte de engenharia. Sempre gostei muito de brincar de Lego e ir ao aeroporto para ver os aviões. Quando eu era criança, o teto do meu quarto era cheio de estrelas brilhantes, então, todos os dias, quando eu ia dormir, eu ficava olhando esse “céu estrelado“ e imaginando como era estar no espaço. Sempre fui curioso a respeito das atividades espaciais.

2) Como estão os preparativos e treinamentos para a viagem? A viagem já foi marcada?

Neste ano, vou realizar alguns treinamentos. Meu primeiro treino foi realizado em março, na centrífuga Phoenix, do NASTAR Center, nos Estados Unidos. O segundo foi realizado no Instituto de Medicina Aeroespacial, da Força Aérea Brasileira, localizado no Rio de Janeiro. Em seguida, fiz um voo de caça em Canoas, no Esquadrão Pampa da Força Aérea Brasileira. Além desses treinamentos, serão realizados outros, como um voo zeroG na Rússia. A viagem não tem uma data certa para ser realizada, pois depende ainda da duração do programa de testes do veículo espacial Lynx. A viagem terá duração de 45 a 60 min. Durante este tempo, eu estarei conduzindo um experimento que será desenvolvido por uma escola de educação básica em parceria com uma universidade brasileira. Esse experimento está dentro do escopo do Programa Microgravidade da Agência Espacial Brasileira.

3) Devido ao ineditismo desse voo espacial, como você avalia os frutos dessa viagem para o Brasil?


Essa será a segunda oportunidade que o Programa Microgravidade disponibiliza para voos espaciais tripulados. A primeira foi com o astronauta Marcos Pontes. Acredito que essa é uma das raras oportunidades de realizar pesquisas voltadas para fisiologia humana em um voo espacial. Nesse sentido, é uma oportunidade para a medicina aeroespacial no Brasil. Por outro lado, o desenvolvimento do experimento é realizado por uma escola de educação básica, em parceria com uma universidade, o que pode ser muito inspirador para esses jovens continuarem trabalhando no setor. Enfim, as contribuições desse experimento podem ser vistas de várias perspectivas, e eu estou muito feliz em, junto com a Agência Espacial Brasileira, contribuir para estender esta oportunidade que foi dada a mim (da viagem espacial) para toda a sociedade brasileira.

4) Como conseguiu o estágio na NASA?

A oportunidade de realizar o intercâmbio nos EUA surgiu em 2012, na primeira chamada do programa Ciência sem Fronteiras. Nessa ocasião, eu fui estudar em Washington, DC, na Catholic University of America. Essa universidade participa do programa de estágios da NASA. A Profa. Duilia de Mello, uma brasileira que é professora do departamento de Física da Universidade, viu que existia uma oportunidade para estudantes brasileiros estagiarem no Goddard Space Flight Center. Foram selecionados alguns brasileiros para esses estágios e eu fui um deles. Comecei no mês de março e o estágio acabou em dezembro. Eu trabalhei em um balão de alta altitude chamado BETTII. Esse balão carregava um telescópio até altitudes elevadas, com o intuito de diminuir a influência da atmosfera na captação das imagens. Dentro desse projeto principal, participei de três outros. O primeiro foi desenvolver uma câmara criogênica para que os dispositivos do balão fossem testados. Durante o verão, também outros alunos americanos começaram a estagiar no projeto. Juntos, fizemos um sensor de estrelas, que é uma câmera que ajuda no apontamento do telescópio para o céu. Durante o segundo semestre, trabalhei no desenvolvimento de circuitos eletrônicos e na análise estrutural do balão.

5) Como você avalia o programa Ciência Sem Fronteiras?

O programa Ciência sem Fronteiras foi muito positivo. Acredito que uma geração inteira de estudantes pôde experimentar diferentes culturas, ambientes educacionais e perceber os aspectos positivos e negativos da educação superior no Brasil. De fato, acredito que essa geração tem grande responsabilidade na condução do nosso país nos próximos anos, e tenho certeza de que o Ciência sem Fronteiras foi decisivo na vida de boa parte desses estudantes.

6) O que você pretende fazer depois de se formar?

Pretendo seguir no setor aeroespacial. Acredito que o Brasil é um país que pode ganhar muito com investimentos nessa área. Ainda falta muito a ser feito, mas vejo isso como um desafio a todos os novos profissionais que estão entrando nesta área agora. Vendo como os EUA e os países europeus conseguiram se desenvolver com um investimento sólido e contínuo nas atividades espaciais, dá-me mais ânimo para trabalhar na área, para que um dia o Brasil e a sociedade brasileira possam também experimentar esses benefícios.

7) Comente um pouco sobre o projeto que vem sendo realizado na Universidade de Brasília para construir um nanossatélite que visa coletar dados ambientais sobre o Brasil. Qual é a missão?

O primeiro satélite do programa Sistema Espacial para Realização de Pesquisas e Experimentos com Nanossatélites (SERPENS) tem uma missão prova de conceito com o objetivo de avaliar aspectos relacionados à utilização de pequenos satélites (nanossatélites, por exemplo) como plataformas espaciais de coletas de dados ambientais. Essas plataformas podem ser utilizadas para contribuir com o Sistema Brasileiro de Coleta de Dados, muito importante para o monitoramento de diversos parâmetros relacionados ao meio ambiente. Porém, como grande parte dos projetos de nanossatélites, o SERPENS tem como objetivo principal a formação de recursos humanos para o Programa Espacial Brasileiro. Estudantes de engenharia aeroespacial tiveram a oportunidade de se envolver em um projeto real de um satélite. Esse tipo de atividade hands-on é um diferencial muito importante na vida acadêmica desses estudantes, devido à exposição aos problemas reais de um projeto dessa natureza.

8) Você considera importante estimular a popularização e difusão da ciência?

Claro! É fundamental que as atividades científicas que acontecem no Brasil sejam divulgadas, afinal, a sociedade brasileira é que, muitas vezes, financia esse tipo de atividade. A difusão da ciência é essencial para que novas oportunidades apareçam. A cooperação e troca de experiências sempre fizeram parte do cotidiano científico. Acredito, também, que é muito importante a popularização da ciência. Todos nós presenciamos a ciência desde o momento em que fomos concebidos. A ciência não é um mundo distante onde apenas alguns privilegiados conseguiram chegar, mas sim uma realidade na qual estamos todos inseridos. Podemos viver a vida inteira sem conhecer as leis da termodinâmica, mas todos sabem que devem se cobrir em uma noite fria. A formalização do conhecimento também é, de fato, importante, porém não pode ser a barreira inicial que irá desanimar as pessoas, principalmente crianças e estudantes, a perseguirem carreiras nessas áreas. Nesse sentido, é importante que os desenvolvimentos científicos sejam explicados de forma acessível, para que todos tenham a oportunidade de conhecer o trabalho realizado. Acredito que um grande exemplo disso foi o trabalho realizado por Richard Feynman.

9) O que o ajudou a alcançar seus sonhos?

Acredito que algumas das características que me ajudaram bastante foram a curiosidade, a dedicação e o foco. Curiosidade para investigar e entender como as coisas funcionam, dedicação, pois nem sempre é fácil entender como as coisas funcionam. Muitas vezes é preciso ler bastante e fazer vários e vários exercícios para realmente entender. E foco, pois é necessário definir quais as suas prioridades. Quem quer fazer tudo termina sem fazer nada direito. É importante também correr atrás do que você deseja, nada vai acontecer se você não levantar da cadeira.
 

Equipe Canal Ciência

03/08/15

Última modificação em Terça, 01 Outubro 2019 16:35

Redes Sociais

CBPF - Centro Brasileiro de Pesquisa Científica
Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá
Instituto Nacional do Semiárido (Insa)
Museu de Astronomia e Ciências Afins
CETEM - Centro de Tecnologia Mineral
IMPA - Instituto de Matemática Pura e Aplicada
 Instituto Nacional de Tecnologia (INT)
Museu Paraense Emílio Goeldi
Cetene - Centro de Tecnologias Estratégicas do Nordeste
INPA - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Laboratório Nacional de Astrofísica - LNA
Observatório Nacional
CTI - Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer
INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
Laboratório Nacional de Computação Científica
Agencia Espacial Brasileira
Ouvidoria
Ouvidoria
Acesso a informação
Image

Setor de Autarquias Sul (SAUS), Quadra 5, Lote 6, Bloco H CEP: 70070-912 - Brasília, DF

Busca