_NOSCRIPT

Portal do Governo Brasileiro
canal-ciencia

Busca Avançada

Biologia reprodutiva da arara-azul-de-Lear na Estação Biológica de Canudos

O que é a pesquisa?

A arara-azul-de-Lear Anodorhynchus leari (Psittacidae, Aves) é uma espécie ameaçada de extinção endêmica da Caatinga. A área de ocorrência dessa espécie permaneceu desconhecida por quase cem anos até que o naturalista alemão Helmunt Sick, durante viagem pelo sertão em 1978, descobriu a primeira população na natureza, com 40 araras, na região do Raso da Catarina, norte da Bahia. Atualmente, mais de trinta anos passados desde a descoberta, a população de araras é estimada em cerca de 1.000 indivíduos.

Ao contrário de outras espécies de arara, a arara-azul-de-Lear não faz ninho em ocos de árvores. Ao longo de anos de observação, os ninhos dessa espécie foram avistados exclusivamente dentro de cavidades naturais, localizadas em paredões rochosos de arenito, que podem atingir até 100 metros de altura. Pesquisas detalhadas sobre a biologia reprodutiva da arara-azul-de-Lear nunca foram feitas antes por conta do difícil acesso aos ninhos localizados nos paredões. Todavia, essa dificuldade de acesso não foi suficiente para impedir a ação de traficantes de aves que, frequentemente, assaltavam os ninhos atrás de filhotes para venda ilegal longe dos olhos das autoridades de fiscalização.

Assim, a criação das unidades de conservação Estação Ecológica do Raso da Catarina e Estação Biológica de Canudos, que protegem os dormitórios e os ninhos das araras, somadas às ações de educação ambiental realizadas pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave/ICMBio) e pela Fundação Biodiversitas no Raso da Catarina têm contribuído expressivamente para o aumento da população de araras-azuis-de-Lear. A Estação Biológica de Canudos foi criada em 1993 e os trabalhos sobre a biologia reprodutiva da espécie vêm sendo conduzidos com o apoio financeiro da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, a partir de uma parceria entre o a Seção de Aves do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP) e a Fundação Biodiversitas.

Nos paredões de arenito da Estação Ecológica de Canudos, diariamente, as araras se agrupam para dormir e, todos os anos, para nidificar. Já foram catalogados 30 ninhos desde o início dessa pesquisa, para conhecer detalhes da biologia reprodutiva da arara-azul-de-Lear, por meio da observação dos comportamentos relacionados à incubação de ovos e aos cuidados com a prole. O estudo, ainda, deseja saber como são os ninhos por dentro e quais são os critérios das araras para selecionar a melhor cavidade para se reproduzir. O sucesso reprodutivo dos casais de arara-azul-de-Lear está sendo verificado pelo monitoramento dos filhotes a partir da eclosão, bem como pela identificação dos fatores que possam prejudicar a reprodução das araras, permitindo, dessa forma, que ações de manejo sejam sugeridas para promover a conservação da espécie.

Como é feita a pesquisa?

Os paredões são observados continuadamente durante o período reprodutivo, que começa no mês de outubro, quando as araras iniciam a exploração dos ninhos, se estendendo até maio do ano seguinte, quando os filhotes voam pela primeira vez acompanhados dos seus pais. Para definir os locais utilizados como ninho pelos casais de araras, os pesquisadores ficam horas e horas observando as muitas idas e vindas das araras aos paredões e anotando o seu comportamento.

Os ninhos são cavidades profundas localizadas nos paredões de arenito e possuem, em média, 10 metros de profundidade. Esses buracos utilizados como ninho foram formados há milhares de anos a partir da ação constante das chuvas e dos ventos. Ou seja, as araras não cavam os buracos, mas escolhem os mais profundos por considerá-los os mais seguros para a criação dos filhotes.

Para chegar aos ninhos, os pesquisadores, sempre em dupla, utilizam técnicas de rapel. Dos 30 ninhos identificados na Estação Biológica de Canudos, 22 já foram visitados pelos pesquisadores. Alguns ninhos são inacessíveis, ou porque são muito estreitos ou pelo fato de abrigarem abelhas européias e africanas, introduzidas na região, instaladas muito próximas das cavidades, o que pode ser perigoso para os pesquisadores.

Já para encontrar o local exato onde as araras botam os ovos, os pesquisadores arrastam-se cavidade adentro. Localizado o ninho, os ovos passam por uma ovoscopia, técnica que permite verificar se o ovo foi fertilizado antes da postura, pois é possível que uma arara ponha um ovo não-galado (não fertilizado). A ovoscopia determina quantos ovos férteis foram postos e, desses, quantos filhotes eclodiram. O ninho é visitado três vezes durante o desenvolvimento do filhote. Ao final do monitoramento, o filhote é retirado do ninho e passa por uma inspeção que avalia a sua saúde. Um microchip, contendo código de identificação, é injetado no músculo peitoral do filhote. O código de identificação pode ser verificado por meio de um leitor (scanner). O filhote ainda é marcado com uma anilha de metal com código de identificação.

Durante a inspeção e marcação do filhote, é coletada uma pequena amostra de sangue — utilizada para definir o sexo por meio de exame laboratorial e em estudos genéticos da população de araras — e são obtidos dados morfométricos (medidas de asa, cauda e comprimento total, largura e altura do bico, cúlmem exposto e tarso) com a ajuda de um paquímetro. A inspeção e marcação dura em torno de 30min e o filhote é devolvido ao ninho imediatamente após a conclusão dos procedimentos. No decorrer da inspeção e coleta de dados, o casal reprodutor permanece todo o tempo do lado de fora da cavidade, atento, vocalizando, aguardando a saída dos pesquisadores. Tão logo isso acontece, o casal retorna ao ninho para inspecionar o filhote. As araras nunca abandonam seus filhotes. Quase sempre, os casais de araras formam-se para toda a vida e são inseparáveis. Ao longo dos três meses de desenvolvimento do filhote, macho e fêmea se revezam no cuidado com a prole, inclusive na busca e oferta de alimento.

Qual a importância da pesquisa?

A pesquisa é importante para verificar a capacidade reprodutiva das araras e das condições ambientais da área protegida. Detalhar a biologia reprodutiva dessa espécie fornece informações que, no futuro, ajudarão na formulação de ações de manejo que contribuam para o aumento da população da arara-azul-de-Lear e para a sua proteção, de fato.

O estudo já demonstrou que é comum a arara-azul-de-Lear botar três ovos. Normalmente, apenas um ou dois filhotes sobrevivem, sendo raríssimo o nascimento e sobrevivência dos três. O sucesso na criação de três filhotes indica que o casal é experiente. Identificar esses casais, bons reprodutores, dentro da população de araras pode, por exemplo, viabilizar a implantação de projeto de manejo de ninhos, no qual filhotes de pais com menos capacidade de criação seriam transferidos para ninhos de casais com mais competência. Essa estratégia, a longo prazo, faria com que um número maior de filhotes chegasse a idade adulta, incrementando, assim, a população das araras.

Do ponto de vista científico e ambiental, a pesquisa sobre a biologia reprodutiva pode contribuir na redução do tráfico de aves já que, durante a coleta de dados nos ninhos, cada filhote é marcado para que o seu desenvolvimento seja monitorado. A marcação permite reencontrar os filhotes após sua saída do ninho e ajuda a identificar a origem de animais traficados e confiscados pela polícia. Por isso, a pesquisa procura marcar o maior número possível de aves. Até o momento, 50 araras jovens foram marcadas. A simples presença dos pesquisadores na área de estudo também contribui para a proteção dos sítios de nidificação, na medida em que inibi as atividades dos traficantes de aves.

Os estudos sobre a biologia reprodutiva de arara-azul-de-Lear na natureza são considerados prioritários para a conservação da espécie segundo o Plano de Manejo da Arara-azul-de-lear. O conhecimento gerado pela pesquisa também contribui para a orientação dos esforços para a reprodução artificial da escassa população de 43 indivíduos mantida em cativeiro (zoológicos e criadouros autorizados) em todo o mundo.

Publicado em 19 de agosto de 2011.