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Aferição das doses de radiação absorvidas por crianças em exames de raios X para sugerir procedimentos seguros

O que é a pesquisa

Entre os tipos de exposição à radiação que afetam a população mundial, a maior parcela corresponde a exposições médicas, isto é, exames que empregam radiação ionizante para diagnóstico e tratamento. Dentre as exposições médicas, os diagnósticos feitos com raios X são a fonte mais significativa para a exposição da população mundial.

Na cidade de São Paulo, dados recentes apontam um grande número de pacientes infantis que se submete a exames radiológicos. Esse grupo etário merece uma atenção maior em relação às doses que recebe, por diversos motivos.

Em primeiro lugar o risco de efeitos prejudiciais devidos à radiação ionizante nos primeiros 10 anos de vida é de 3 a 4 vezes maior do que entre idades de 30 a 40 anos, e de 5 a 7 vezes maior quando comparado a exposições que ocorrem depois dos 50 anos.

Além disso, o pequeno tamanho do corpo e a variação de suas proporções com a idade, a composição corporal dependente da idade e a falta de cooperação durante a realização do exame dificultam a produção de boas imagens radiológicas em crianças, causando o problema de posicionamento incorreto (causa mais freqüente da
rejeição de imagens radiológicas em radiologia pediátrica) e conseqüente repetição dos exames e das exposições.

No Brasil, a Portaria nº453 do Ministério da Saúde estabelece os valores dos níveis de referência de dose absorvida para um adulto típico, de peso entre 60 e 75 kg e altura entre 1,60 e 1,75 m, mas
não faz qualquer menção a crianças.

Esses fatores fazem com que seja essencial desenvolver condições de proteção radiológica especiais no campo da radiologia diagnóstica para pacientes pediátricos.

Para isso, pesquisadores do Laboratório de Dosimetria do Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IF/USP) iniciaram em alguns hospitais, considerados de referência na área infantil do município de São Paulo, um levantamento que, numa primeira etapa, tem os objetivos de:

- determinar a freqüência e tipo de exame associado ao perfil dos pacientes (sexo, idade, peso etc.); e

- avaliar as doses absorvidas nos exames mais freqüentes e sua correlação com as técnicas empregadas e com o tipo de equipamento de raios X (filtração adicional, tipo de gerador etc.).

A partir de comparações de valores de doses entre várias instituições responsáveis pela realização de exames radiológicos em pediatria, os pesquisadores querem embasar sugestões para o estabelecimento
de níveis de referência de doses para pacientes infantis.

Como é feita a pesquisa

A partir de uma coleção de aproximadamente 5000 prontuários (equivalentes a 1 mês de atendimento) de pacientes examinados com radiografias convencionais em um hospital da cidade de São Paulo, foram selecionadas as radiografias infantis e classificadas as seguintes informações: tipo de exame (região do corpo e projeção), idade do paciente e justificativa para o exame. Fez-se então uma primeira avaliação das distribuições etária e por exame.

Na continuidade dessa pesquisa, está sendo realizado um estudo em uma amostra significativa de hospitais e clínicas no Estado de São Paulo (cerca de 200). O sorteio aleatório desse conjunto de instituições, agrupadas pelo seu porte, possibilitou o início de uma avaliação em grande escala de doses recebidas pela população em geral, submetida a exames radiológicos convencionais.

Após o consentimento dos responsáveis pelas instituições, foi enviado a cada local um kit postal contendo um conjunto de dosímetros termoluminescentes (pequenos cristais de fluoreto de lítio com 3x3x1mm que armazenam a energia dos raios X, e a emitem na forma de luz, quando aquecidos). Os dosímetros são fixados na pele do paciente pelo técnico radiologista do local no momento da realização da radiografia. Após realização da radiografia, os dosímetros são enviados, via correio, ao Laboratório de Dosimetria para determinação das doses. Nessa etapa do estudo só estão sendo avaliadas as doses nos pacientes que realizam radiografias de tórax.

Foram também solicitadas informações sobre o paciente (sexo, idade, peso, estatura, justificativa do exame), a técnica empregada (tensão, corrente e tempo) e o equipamento (tipo de gerador, filtração).

Com a devida calibração, os detectores termoluminescentes fornecem uma grandeza denominada "dose de entrada na pele" (DEP). Desse conjunto de dados extraíram-se os resultados referentes a pacientes infantis.

É importante lembrar que não foi solicitado às instituições participantes a adoção de nenhuma condição para a escolha de pacientes.

Importância da pesquisa

Assim como acontece nos exames radiológicos convencionais realizados em adultos, os exames de tórax são os mais freqüentes (60%) na pediatria.

Entretanto, diferentemente da radiologia adulta, a pesquisa mostra que os exames de crânio aparecem com a segunda maior freqüência entre crianças. É importante observar que a prevalência observada dos exames de crânio em pacientes acima dos 3 anos de idade justifica um estudo dos valores de dose também para esse tipo de exame.

Um dado inicial da pesquisa, ou seja, o grande número de radiografias realizadas em crianças com menos de 1 ano de idade, caso confirmado em outros hospitais, indica que deve ser realizado um esforço para recomendar procedimentos e técnicas que evitem repetições desnecessárias de radiografias, levando a uma imagem de qualidade diagnóstica e minimizando a dose por pacientes nessa faixa.

Outro alerta vem do fato que os valores médios da dose de entrada na pele para exames de tórax encontrados neste estudo, considerando uma criança com biótipo padrão (entre 4 e 6 anos, pesando entre 15 e 25 kg), são superiores aos níveis de referência sugeridos nos países da Comunidade Européia.

Esses resultados apontam para a necessidade de otimização (minimização) dos valores de dose. O que esta pesquisa evidencia é como tornou-se fundamental estabelecer, no país, os níveis de referência para a radiologia diagnóstica pediátrica.

Apesar de os resultados já disponíveis serem referentes ainda a poucas instituições e pacientes, eles já dão uma primeira visão do perfil do paciente infantil em São Paulo.

É essencial conhecer esse perfil para encaminhar trabalhos posteriores, sejam eles de levantamentos de dose em pacientes, de estimativas de dose em simuladores ou mesmo para o cálculo de energias depositadas em pacientes por simulações computacionais.

Texto de divulgação científica publicado em 28 de agosto de 2003.