| Resumo: | <strong>Origens familiares e herança intelectual: primeiros passos</strong>
A história não é apenas a lembrança do que já passou. Ela é viva e dinâmica, feita no presente, quando os historiadores revisitam memórias, interpretam documentos e organizam vozes. Não é mera cronologia, mas uma construção humana atravessada pela subjetividade e pela memória. É nesse horizonte que se inscreve a trajetória de Lilia Schwarcz.
Lilia Katri Moritz Schwarcz – Lili, para os amigos – nasceu em 27 de dezembro de 1957, na cidade de São Paulo. Sua família, de origem judaica francesa e italiana, emigrou para o Brasil fugindo do nazismo (Oliveira, 2024). Ela conta, com admiração, sobre a importante atuação dos avós no acolhimento de imigrantes vítimas da guerra e da luta da tia Hella pela recuperação de bens de famílias judias roubados pelo nazismo (Schwarcz, 2019b).
A afinidade de Lilia com antropologia e história surgiu, em parte, com a mãe, formada em ciências sociais, e com livros dessas áreas que herdou de seus avôs. Sua passagem pelo Colégio Vocacional — escola experimental da rede pública, politizada e voltada à inclusão social por meio da igualdade de oportunidades — também foi decisiva para sua formação intelectual (Schwarcz, 2019b). Ela recorda ainda que a militância da tia Hella despertou nela o entusiasmo por ciências sociais e história desde jovem (Schwarcz, 2019b).
<strong>Entre a história e a antropologia: formação acadêmica e produção intelectual</strong>
O interesse e a sensibilidade para questões da memória viraram escolha profissional: Lilia formou-se em história na Universidade de São Paulo (USP). Ela confessa, porém, que sua entrada para a história foi fruto de um equívoco. Conta que, no momento da inscrição para o vestibular, pensou ter escolhido ciências sociais (Schwarcz, 2014). Espantou-se, contudo, ao ver que havia sido aprovada para história, que não havia sido sua primeira opção, e foi à universidade resolver a confusão. Lá um funcionário lhe disse para dar uma chance ao curso apesar do engano, pois ela poderia gostar. Dito e feito: Lilia acabou entrando para a história e de lá nunca mais quis sair.
Hoje, Schwarcz habita confortavelmente um lugar entre a história e a antropologia (Schwarcz, 2014). Ela afirma, contudo, que no início foi difícil atuar nessa fronteira, fazendo o que ela chama de etno-história ou história antropológica: “uma história atenta não só à mudança, mas também ao que fica” (Schwarcz, 2025).
Suas pesquisas de mestrado e doutorado em Antropologia Social são interdisciplinares e carregadas da perspectiva histórica. Investiga questões de raça e representação social, usando a imprensa e produções científicas do século XIX como fontes principais. Para Schwarcz, a construção histórica da sociedade brasileira e das suas desigualdades é fundamentada em questões raciais.
Ela mostra que, na história do país, especialmente em meados do século XIX e início do XX, muitos cientistas e intelectuais usaram argumentos científicos para justificar diferenças e desigualdades entre as pessoas. Criaram teorias ligando características físicas, como cor da pele e traços biológicos, a questões sociais como raça e gênero. Desse modo, fizeram parecer que era <i>natural</i> e <i>cientificamente justificado</i> que algumas pessoas ocupassem certos lugares na sociedade, enquanto outras fossem mantidas à margem.
Schwarcz analisa como essas teorias foram usadas para apoiar o racismo e tornar tais diferenças socialmente aceitas, e como tudo isso serviu para reforçar a ideia de que alguns grupos — principalmente homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais — têm mais direitos e privilégios do que outros. Seus estudos ajudam a entender de onde vêm as desigualdades que ainda existem no Brasil, e por que é necessário questionar as ideias preconceituosas que se apresentam como ciência.
Das pesquisas acadêmicas às postagens nas redes sociais, Schwarcz chama atenção para a centralidade da discussão sobre raça na sociedade brasileira. Reitera constantemente que é crucial compreender o papel das relações raciais na constituição da nossa sociedade e na manutenção de desigualdades e injustiças.
<strong>Vida pessoal e parceria com Luiz Schwarcz</strong>
Muitos trabalhos de Lilia sobre essas questões já foram publicados pela Companhia das Letras, editora que ela fundou em parceria com Luiz Schwarcz, seu esposo.
Juntos no trabalho e no amor, os dois se conheceram muito novos. Quando tinha 12 anos, Lilia fez amizade com Luiz, colega da colônia de férias. Nessa época, ela foi cupido para o então amigo: “fui a <i>matchmaker</i> dele com uma outra pessoa”, ela relata bem-humorada (Schwarcz, 2019b).
Durante o ensino médio, já mais velhos, Lilia e Luiz se reencontraram e, desde então, nunca mais se separaram (Schwarcz, 2019b). Casaram-se, tiveram dois filhos e fundaram, juntos, uma editora de grande sucesso nacional responsável pela edição de relevantes obras da literatura brasileira de ficção e não-ficção.
Inúmeras obras de Schwarcz já foram lançadas sob o selo da Cia das Letras. A mais recente, <i>Imagens da branquitude: A presença da ausência</i> (2024), venceu o prêmio Jabuti Acadêmico de História e Arqueologia de 2025. O livro é fruto de anos de investigação sobre o uso de imagens como fontes históricas para compreender a construção de identidades e desigualdades sociais. Seu dedicado estudo sobre imagens mostra que elas não são mera decoração, pois elas produzem valores e significados (Schwarcz, 2025). No livro premiado, assim como em outros trabalhos, Lilia mostra como é possível “ler” imagens.
Também publicado pela editora, em 1993, o livro de Schwarcz <i>O espetáculo das raças</i> é considerado marco nos estudos sobre a construção científica do racismo no Brasil entre 1870 e 1930.
Outro título notável é <i>Brasil: Uma biografia</i> (2015), produzido em parceria com a historiadora Heloísa M. Starling. O Brasil é tratado como personagem de um enredo histórico-biográfico, elaborado a partir da análise de fontes históricas e perguntas do presente (Schwarcz e Starling, 2025).
<strong>Reconhecimento, prêmios e papel público</strong>
Reconhecido nacional e internacionalmente, o trabalho de Schwarcz combina o rigor científico com uma escrita clara e descomplicada. Transforma temas difíceis em leitura agradável, acessível a estudiosos especializados e ao grande público. Sua linguagem – fluida e didática – aproxima o leitor de questões essenciais da nossa história.
Por seu singular talento, Schwarcz recebeu prestigiosos prêmios literários, como o Jabuti de Ciências Humanas (2022) pela obra <i>Enciclopédia Negra</i>, em co-autoria com Flávio dos Santos Gomes. Nela, trajetórias de personalidades negras apagadas pela historiografia hegemônica ganham visibilidade. Em 2023, foi vencedora do Jabuti de Literatura Juvenil com o livro <i>Óculos de cor</i> (2022), em que escreve para crianças sobre seus temas de estudo, em especial, a branquitude e o racismo estrutural no Brasil.
Schwarcz também atuou como curadora de histórias de aclamadas exposições de arte, como a emblemática <i>Histórias Afro-Atlânticas</i> (2018), promovida pelo MASP. A mostra, que integra uma série de projetos e exibições em torno de diferentes histórias, foi bem recebida no circuito artístico nacional e internacional, ganhando o título de melhor exposição do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte. O impacto da exposição confirmou a força da abordagem interdisciplinar do trabalho de Schwarcz, capaz de articular história, artes visuais e política da memória por meio de diferentes linguagens.
Pela contribuição de seus estudos e atuação pública para a sociedade no desenvolvimento da cultura, ciência, tecnologia e inovação no Brasil, Schwarcz recebeu do governo a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico, em 2010, e a Comenda da Ordem de Mérito Cultural, em 2025.
Em 2024, Lilia Schwarcz foi eleita para integrar a Academia Brasileira de Letras. Ela reconhece que a ABL é um lugar de privilégios (Schwarcz, 2024a): em mais de um século de existência, a instituição teve apenas 13 membros mulheres. A composição da Academia reflete o desequilíbrio de oportunidades da nossa sociedade: poucas mulheres, pessoas negras, pretas e pardas, ainda menos indígenas e representantes de povos originários.
Apesar disso, a nomeação de Schwarcz foi mais um passo na direção da diversidade e da inclusão de vozes plurais na cultura nacional. A ABL reconhece a aptidão de Lilia à luta por uma sociedade mais justa e igualitária, e destaca a importância de seus estudos sobre a história do Brasil e sua presença pública enquanto cientista, educadora e cidadã.
Ao longo de sua trajetória, Schwarcz não deixou de rever posições. Em 2006, foi uma das signatárias do Manifesto Contra as Cotas Raciais, mas, posteriormente, retratou-se publicamente, reconhecendo a importância das cotas como ação afirmativa para enfrentar desigualdades históricas (Schwarcz, 2019a). A reflexão aprofundou seu interesse no tema da branquitude e na necessidade da autocrítica do lugar de fala de estudiosos brancos.
Como afirma o filósofo e historiador Michel de Certeau, um dos pilares da pesquisa é o local de produção de onde fala o pesquisador. Isso significa que é essencial a todo cientista ter consciência de seu lugar na sociedade, para entender suas motivações e conhecer as limitações e possibilidades que circunscrevem sua pesquisa.
O episódio de retratação pública de Schwarcz é representativo de como o conhecimento é construído. Em qualquer área, a ciência deve ser aberta ao debate. O embate de ideias não a deixa falsa ou frágil; pelo contrário: o intercâmbio entre pares e a possibilidade de rever certas práticas tornam o conhecimento científico verídico e verdadeiramente alinhado à realidade, sempre dinâmica. Isso, a longo prazo, é muito positivo (Schwarcz, 2022).
Hoje o olhar de Schwarcz é muito mais atento a questões que antes passavam despercebidas, justamente por estarem naturalizadas em nossa sociedade. A branquitude, ela explica, sempre refletiu sobre o outro, mas nunca sobre si, o que afetou negativamente a estruturação do conhecimento (Schwarcz, 2022).
Quando pesquisadores brancos não questionam seu próprio lugar, deixam de identificar e abordar diversos problemas em suas pesquisas. A autorreflexão e a autocrítica são, por isso, processos necessários para a efetiva transformação não só do meio acadêmico, mas da sociedade em geral.
Schwarcz entende que, para alcançar essa mudança, precisa ouvir e ecoar as vozes e vivências de outros indivíduos. Os debates que promove em sala de aula contam com bibliografias de estudiosos e ativistas como Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento e Sueli Carneiro, que há muitos anos denunciam esses mesmos conflitos sociais (Schwarcz, 2022). A atuação de Schwarcz soma aos esforços deles e tantos outros no combate às injustiças históricas.
<strong>Compromisso com o debate público e a educação: legado e contribuição para a sociedade</strong>
Lilia Schwarcz é uma grande notável no meio acadêmico, atuando como professora do Departamento de Antropologia da USP, e Global Scholar em Princeton. Recentemente, passou a marcar presença também na internet, produzindo conteúdos no YouTube e em seu podcast. Neles, discute assuntos da atualidade e da história descontraidamente, sem abrir mão do cuidado com a informação característicos de uma grande cientista. Uma voz como a dela, que une seu lugar de pesquisadora e figura pública para divulgar conhecimento científico, é crucial no combate à desinformação, sobretudo, no mundo digital contemporâneo.
Com a seriedade metodológica das ciências e uma linguagem acessível para diversos públicos, Schwarcz discute e se posiciona publicamente sobre temas fundamentais de nossa história, como escravidão, questões raciais e autoritarismo. Sua perspectiva científica interdisciplinar oferece relevantes contribuições para o debate sobre o Brasil, ampliando nosso entendimento sobre as estruturas sociais, culturais e políticas de nosso país.
Para ela, a ciência, assim como a educação, são pilares de um país mais democrático, e por essa razão devem sempre andar juntas. Por isso, Lilia se apresenta orgulhosamente como mulher educadora e cientista, e defende com firmeza a educação pública de qualidade nas escolas e universidades. É por meio da educação e da ciência que chegamos à verdade e à boa informação, nossas principais armas contra o negacionismo e a desinformação (Schwarcz, 2025).
Schwarcz define seu ofício de historiadora como de um “mercador do tempo", que “volta aos mesmos contextos com perguntas novas [...], do seu momento” (Schwarz, 2020). O passado é dinâmico e está em constante transformação: modifica-se à medida que mudam as questões do presente. Schwarcz é essa navegante de tempos que, sensível aos desafios de seu presente, olha para o passado atenta e motivada a contribuir na produção de conhecimento sobre o mundo em que vive.
Com timidez e modéstia, Lili reluta em aceitar seu merecido lugar no panteão de notáveis cientistas brasileiros. Reconhece, porém, que a geração da qual ela faz parte tem um legado de inegável relevância: é responsável por renovar a historiografia e a antropologia no Brasil, enfatizando o estudo da perversidade do regime escravocrata e o protagonismo de pessoas escravizadas. Ao invés de vê-las apenas como vítimas, essa historiografia – em grande parte produzida por intelectuais negros – evidencia sua agência, rebeliões e insurreições individuais e coletivas. Ao mesmo tempo, ela observa que a antropologia brasileira projetou o pensamento ameríndio e o perspectivismo para além das fronteiras nacionais, fazendo com que sua geração tenha impacto significativo também nos debates internacionais da disciplina.
Lilia Schwarcz é uma pesquisadora que integra rigor acadêmico, compromisso social e capacidade de comunicação pública. Oferece à sociedade instrumentos de reflexão sobre o presente ao revisitar temas pungentes como escravidão e racismo. Sua atuação exemplifica o papel social da ciência: produzir conhecimento crítico, preservar a memória histórica e participar do debate público para a construção de uma sociedade mais justa.
Seus estudos contribuem enormemente para a sociedade brasileira, demonstrando como é imprescindível conhecer e questionar de forma crítica o passado, para transformar o presente e propor novos futuros.
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