| Resumo: | <strong>Laços familiares e formação acadêmica</strong>
A vida de Nise da Silveira foi marcada por uma incansável dedicação à humanização da psiquiatria. Pioneira na defesa dos direitos e da dignidade de pacientes com transtornos mentais, nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas. Era filha de Faustino Magalhães da Silveira, jornalista e professor, e de Maria Lidia da Silveira, pianista. Em entrevista para Luiz Gonzaga Pereira Leal (1994) ela fala da sua infância [..]” fui felicíssima. Filha única. Mimadíssima. Minha mãe, musicista, tangenciando a genialidade. Meu pai, um homem que lia muito matemática e literatura. Ele tinha uma boa biblioteca. E sendo assim, li Machado de Assis muito cedo”.
Ambos tiveram papel fundamental em sua formação intelectual desde a infância. Estudou no colégio Santíssimo Sacramento, uma instituição voltada exclusivamente para meninas, em sua cidade natal. O pai de Nise desejava que ela fosse pianista como a mãe, porém ela não tinha grande interesse pelo instrumento e optou pela medicina. Nise ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1921, um feito notável para uma mulher naquela época e formou-se em 1926, sendo a única mulher de sua turma composta por 157 rapazes. (MAGALDI, 2020)
Foi morar em Salvador com Mário Magalhães da Silveira, primo e colega de turma na faculdade de medicina. O casamento foi oficializado tempos depois em 1940. O casal não teve filhos e permaneceu junto até o falecimento de Mário, em 1986. Mário Magalhães da Silveira formou-se em medicina e escolheu atuar como sanitarista, segundo Escorel (2015), "Mário Magalhães foi, por mais de vinte anos, o principal mentor da corrente de pensamento conhecida como sanitarismo desenvolvimentista". Mário foi um dos pioneiros do sanitarismo, corrente de pensamento que defendia o desenvolvimento econômico para a melhoria da saúde pública.
Em 1927, o pai de Nise faleceu, fato que motivou a sua mudança com o marido para o Rio de Janeiro. Ao chegar ao Rio de Janeiro iniciou amizade com artistas, escritores e militantes políticos. Em seu círculo de amizades estavam o escritor Manuel Bandeira e o diplomata Ribeiro Couto e, logo, Nise aproximou-se de lideranças do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1930, foi uma das poucas mulheres a assinar o <i>Manifesto dos Trabalhadores Intelectuais ao Povo Brasileiro</i>, o documento que defendia a luta dos trabalhadores contra a opressão e a miséria e realizava elogios à União Soviética como o país capaz de combater as mazelas das sociedades capitalistas (MAGALDI, 2020). Entretanto, foi expulsa do Partido Comunista Brasileiro por defender as ideias do <i>trotskismo</i>, movimento que defende as propostas do político e revolucionário ucraniano Leon Trótski, como revolução permanente e internacional.
Em 1933, ela foi aprovada em concurso público para trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospital da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro — um dos mais importantes centros psiquiátricos do Brasil na época. A instituição seguia o modelo psiquiátrico tradicional, com tratamentos como eletrochoque, lobotomia e insulinoterapia. A médica passou a desenvolver um olhar crítico sobre como os pacientes eram tratados.
No contexto da repressão política do governo Vargas, Nise foi presa em 1936, acusada de envolvimento com o comunismo. A denúncia partiu de uma funcionária do hospital onde trabalhava. O fato de possuir livros marxistas no local de trabalho foi uma das justificativas para o seu aprisionamento. Passou cerca de um ano no presídio Frei Caneca, onde teve contato com intelectuais como Graciliano Ramos (MAGALDI, 2020).
Em Memórias do Cárcere (1953), Graciliano Ramos narra o encontro dos dois, ocorrido entre 1936 e 1937, de forma comovente:
<cite>“Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se: – Nise da Silveira. Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Rachel de Queirós me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática. O marido, também médico, era o meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me, num vivo constrangimento.” (RAMOS, Graciliano, Memórias do Cárcere, 1953, pág. 138)</cite>
Após a prisão, isolou-se por um tempo no interior da Bahia. A prisão criou em Nise uma nova visão de vida, passou a ter mania de liberdade, o que teve reflexos diretos na sua trajetória profissional. Retomou sua carreira em 1944, após oito anos distante da medicina, indo trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, atual Instituto Municipal Nise da Silveira. Foi nesse local que implementou abordagens inovadoras no tratamento psiquiátrico, criando a Seção de Terapêutica Ocupacional, com foco na expressão artística dos pacientes. Nise se opunha à lobotomia, ao eletrochoque e à insulinoterapia, práticas invasivas que impunham grande sofrimento aos internos (MAGALDI, 2019).
Nise sempre conviveu com animais e tinha muito carinho por eles, principalmente os gatos. Em entrevista a Leal (1994), ela falou sobre a relação com os animais: “Eu gosto muito de todos os animais. Admiro muito o cão. Me sinto humilhada diante do cão. Respeito o cão, porque o cão tem uma qualidade que eu acho belíssima e da qual eu me sinto distante, que é a infinita capacidade de perdoar [...] Com relação aos gatos, de tanto vê-los na rua desamparados, eu ia apanhando e trazendo para casa. Cheguei a ter 23 gatos.”
Os animais foram usados no processo da terapêutica ocupacional, atuando como coterapeutas. Gatos e outros animais estavam sempre presentes em seus locais de trabalho.
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