| Resumo: | <strong> A vida de Isaac Newton </Strong>
Se alguém nos pedir para pensar em um cientista, é provável que à cabeça de muitos venha o nome de Isaac Newton. Um dos mais conhecidos filósofos naturais da história ocidental, Newton impactou a Europa de sua época com certas ideias que desenvolveu, algumas das quais são referência para os campos da Física, da Astronomia e da Matemática, até os dias de hoje. Mas é importante ter em mente que, antes de ser um estudioso, Newton era uma pessoa de carne e osso e, quando conhecermos um pouco de sua trajetória, isso ficará claro.
Hannah Ayscough Newton deu à luz em plena noite de Natal, 25 de dezembro de 1642, no Condado de Lincolnshire, zona rural na Inglaterra. Filho único de um pai que faleceu três meses antes de seu nascimento, Isaac Newton, assim batizado em homenagem a ele, nasceu prematuro e ninguém esperava que ele sobrevivesse. Quando Newton tinha 3 anos, Hannah casou-se novamente, com o reverendo Barnabas Smith, e teve mais três filhos. Ela e o marido mudaram-se para outro vilarejo com as crianças, deixando Newton aos cuidados dos avós, na propriedade rural em que moravam, chamada <i>Woolsthorpe</i>. Barnabas Smith vinha de uma família abastada e quando se casou com Hannah deu ao jovem Newton, por exigência dela, um pedaço de terra. Assim, a família de Newton acumulou certo patrimônio ao longo de algumas gerações (WESTFALL, 2007).
Desde pequeno, Newton tinha uma grande paixão: construir objetos – principalmente miniaturas (modelos) de madeira. Era muito habilidoso com desenho e com ferramentas manuais e construiu relógios solares, um carrinho (parecido com o de rolimã), lanternas de papel (para iluminar seu caminho para escola nas manhãs de inverno da Inglaterra), um moinho de vento (no qual instalou uma esteira, onde colocava um rato para correr e mover sua estrutura), entre outros. Newton parece ter sido um jovem muito curioso, observador e interessado em aprender novas coisas, principalmente, sobre os fenômenos da natureza. Costumava ler livros e gostava de atividades minuciosas, como a já mencionada construção de modelos (WESTFALL, 2007).
Durante a infância, frequentou escolas em vilarejos que ficavam próximos de sua casa. Mas quando completou 12 anos, passou a estudar em um povoado um pouco mais distante, chamado Grantham, para onde se mudou. Na nova escola provavelmente teve aulas de latim, grego e de todas as disciplinas comumente oferecidas nesse tipo de escola da Inglaterra do século XVII. Não há indícios de que Newton tenha tido contato com qualquer conteúdo mais complexo de filosofia natural ou matemática, nesse momento. Entretanto, saber ler e escrever em latim se tornaria algo muito significativo para ele, porque grande parte das obras que o inspiraram estavam escritas nesse idioma. Assim, ter domínio dele permitiria que Newton lesse escritos de importantes pensadores (WESTFALL, 2007).
Tudo indica que Newton tenha vivido sua infância e adolescência em certo isolamento, distante da família e sem muitos amigos. Seu padrasto faleceu quando ele tinha 10 anos e sua mãe voltou para a casa de seus avós. Ao completar 17 anos, Newton deixou Grantham e retornou a <i>Woolsthorpe</i>, para aprender sobre atividades rurais, como a criação de animais. Sua mãe queria que ele administrasse a propriedade da família, mas Newton não conseguia deixar de lado sua fixação por modelos. Nesse período, o tio de Newton, William Ayscough (irmão de sua mãe), e o diretor da escola em que ele havia estudado em Grantham, passaram a insistir com Hannah que o mandasse novamente para o colégio, para que Newton se preparasse para entrar na universidade. Assim, em 1660, ele retornou a Grantham e, um ano depois, ingressou na Universidade de Cambridge, no <i>Trinity College</i> (WESTFALL, 2007).
Newton estudava o conteúdo do currículo da universidade, mas também buscava leituras sobre outros temas, como astrologia e fonética. Assim, leu autores ocidentais importantes, como René Descartes, Galileu Galilei, Thomas Hobbes e Robert Boyle. Era bastante metódico em seus estudos, organizando os pensamentos em tópicos. Esse tipo de organização, que ele chamava de <i>Quaestiones</i> (“Questões”), permitia que Newton registrasse questionamentos e encadeasse suas ideias. Foi também nesse contexto que passou a se afastar da visão de mundo aristotélica e a se dedicar mais aos estudos sobre mecânica, astronomia kepleriana e matemática. Seus cadernos deixam evidente as críticas que fazia a certos autores, mostrando que suas percepções não eram registradas de forma passiva. Exemplos disso, são a teoria da luz de Descartes e as explicações aristotélicas sobre o movimento dos corpos, das quais Newton discordava (WESTFALL, 2007).
Hoje, é natural considerarmos o questionamento ativo como um dos princípios da experimentação, pois ele pode nos ajudar a formular e a testar hipóteses. Mas esse entendimento foi construído ao longo da história e com a contribuição de diferentes pessoas, entre elas, Newton. Em certas situações, seus questionamentos o levavam a fazer experimentos práticos, em muitos dos quais utilizou o prisma. Mas Newton também utilizava experimentos mentais, que consistem em imaginar o experimento em si, com todos os seus elementos, e calcular os resultados esperados apenas mentalmente (WESTFALL, 2007).
Cerca de três anos se passaram e o tempo de Newton em Cambridge estava se esgotando – logo que ele tivesse seu diploma teria que deixar a universidade. A alternativa para isso era passar por um exame e conseguir uma das oito bolsas que a universidade oferecia para alunos que queriam continuar seus estudos, mas não tinham condições de custeá-los. Duas pessoas parecem ter sido importantes nesse processo: Isaac Barrow e Humphrey Babington. Barrow foi o primeiro professor da Cátedra Lucasiana de Matemática da Universidade de Cambridge e uma importante referência para Newton. O professor emprestava livros para ele e era o único capaz de avaliar seus conhecimentos. Ninguém no <i>Trinity College</i>, além de Barrow, conhecia tão bem os temas da matemática que Newton dominava. Já Humphrey Babington era irmão da esposa do Sr. Clark, o boticário em cuja casa Newton viveu durante o período em que estudou em Grantham. Babington era membro do <i>Trinity College</i> e tinha poderes de decisão sobre certos assuntos da instituição. Não se sabe exatamente quais foram as contribuições que ambos deram para que Newton fosse eleito para uma bolsa, em 1664 (WESTFALL, 2007).
Em 1665, ele obteve seu diploma de Bacharelado em Artes, mas, neste mesmo ano, uma epidemia de peste bubônica acometeu a Inglaterra e as atividades da universidade ficaram interrompidas. Até que a situação se normalizasse, Newton passou algumas temporadas na casa em que cresceu. Esse período é considerado um dos mais produtivos de sua trajetória e, de fato, foi quando ele se dedicou muito ao estudo do cálculo, da teoria das cores, da força da gravidade e de diversos outros temas da filosofia natural. Contudo, os estudos que Newton desenvolveu nesse momento foram produto da dedicação que vinha empreendendo durante anos e não apenas dos meses de reclusão (WESTFALL, 2007).
Foi nesse período que Newton desenvolveu as bases do que hoje conhecemos como o cálculo diferencial e integral, lidou com a definição do conceito de movimento e construiu o telescópio refletor. Outro tema que o mobilizou foram as cores e para estudar o fenômeno inspirou-se em obras de diferentes filósofos naturais, entre eles Robert Hooke. Mas Newton discordava de algumas ideias de Hooke e acabou desenvolvendo sua própria teoria sobre luz e cor. Ele também realizou investigações sobre a força da gravidade, tema que envolveria o famoso episódio da queda da maçã, a qual teria originado a compreensão de Newton sobre a lei da gravitação universal (WESTFALL, 2007).
Passado o período da peste, Newton retornou a Cambridge e, em 1667, de forma mais uma vez improvável, foi aprovado no concurso para professor do <i>Trinity College</i>. Dois anos depois, em 1669, assumiu a Cátedra Lucasiana de Matemática por indicação de Isaac Barrow. Em seus tempos como professor, Newton não foi muito popular entre os alunos – suas aulas costumavam ser vazias e não há depoimentos de qualquer tipo de afeição (WESTFALL, 2007).
Neste mesmo ano, a pedido de Barrow, Newton enviou um de seus manuscritos, intitulado “Sobre a análise das séries infinitas”, ao renomado matemático inglês John Collins. Collins ficou encantado com o trabalho e propôs a Newton que o publicassem, mas ele negou o convite. Aparentemente, Newton era muito perfeccionista e não lidava bem com críticas, por isso não permitia que suas teorias fossem publicadas sem que as revisasse diversas vezes (WESTFALL, 2007).
Em 1671, Barrow levou o telescópio refletor construído por Newton, durante o período da peste, à mais importante sociedade científica da Inglaterra, a <i>Royal Society</i>. O objeto virou uma grande sensação e Newton tornou-se membro da agremiação. No ano seguinte, apresentou sua teoria das cores na sociedade, a qual foi aceita por diversos dos participantes, mas também recebeu duras críticas. Algumas delas vieram justamente de Robert Hooke, em cuja obra Newton havia se inspirado, e com quem entrou em uma discussão acalorada que se arrastou por quatro anos. Depois desta controvérsia, Newton engavetou seus trabalhos sobre óptica, passando a dedicar-se a outros temas, como alquimia e teologia (WESTFALL, 2007).
O final da década de 1670 e início dos anos de 1680, parecem ter sido emocionalmente conturbados para Newton. Em 1679, sua mãe faleceu e, em 1683, um amigo de longa data, John Wickins, decidiu deixar Cambridge. Newton e Wickins foram colegas de quarto e mantiveram uma amizade por cerca de 20 anos. Era ele quem copiava os manuscritos de Newton, o auxiliava em seus experimentos e desempenhava atividades que direta ou indiretamente foram imprescindíveis para que Newton pudesse se dedicar a seus estudos (WESTFALL, 2007). Assim, não podemos deixar de considerar a grande importância de Wickins no desenvolvimento das ideias de Newton – uma evidência de que cientistas dependem de outras pessoas, que não somente outros cientistas, para realizar suas investigações.
O novo escudeiro de Newton em seus estudos e experimentos foi Humphrey Newton, e apesar de terem o mesmo sobrenome, eles não eram parentes. Humphrey também foi um personagem muito importante na trajetória de Newton, porque, ao lado de John Conduitt, colecionou uma série de memórias que deram origem a anedotas, míticas ou não, sobre a personalidade do filósofo natural. Humphrey tinha amplas recordações sobre um Newton obcecado pelos estudos, que comia e dormia muito pouco e realizava diversos experimentos alquímicos em um laboratório improvisado dentro de seu quarto. Além disso, Humphrey teve um papel significativo na publicação de uma das mais importantes obras de Newton – os <i>Philosophiae naturalis principia mathematica </i> (“Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”), que foi impresso a partir de uma cópia dos manuscritos de Newton feita por Humphrey (WESTFALL, 2007).
Ao longo da década de 1680, Newton começou a repensar algumas de suas ideias sobre o movimento dos corpos celestes, interessando-se pelo estudo dos cometas. Foi nesse contexto que se aproximou do filósofo natural britânico Edmond Halley. Eles passaram a trocar ideias sobre o tema e Halley pediu a Newton que lhe enviasse alguns de seus cálculos. Metódico e perfeccionista como era, Newton enviou a Halley um pequeno tratado, que chamou <i>De motu corporum in gyrum </i> (“Sobre o Movimento dos Corpos em Órbita”). Nele, trazia hipóteses e definições sobre diferentes tipos de movimento e, a fim de honrar seu compromisso com o rigor metodológico, demonstrou de forma sistematizada o fenômeno da gravitação universal (WESTFALL, 2007).
Algumas passagens desse tratado fizeram parte do livro Principia, cuja publicação deveu-se muito à insistência, tenacidade e, podemos dizer também, coragem de Edmond Halley, à época secretário da <i> Royal Society </i>. Foi ele quem convenceu uma instituição praticamente falida a publicar os escritos de Newton, em um processo muito conturbado e que quase lhe custou o emprego na agremiação. Mas, em 1687, a publicação saiu e Halley enviou exemplares a diversos pensadores da época – uma estratégia que contribuiu amplamente para a circulação da obra na Europa, sobretudo, na Inglaterra. Newton conquistou respeito e prestígio com a publicação dos <i>Principia</i>, e em 1689, foi eleito representante da Universidade de Cambridge no Parlamento Constituinte inglês. Além disso, desenvolveu algumas relações próximas com pessoas importantes de seu tempo, como o poeta e político Charles Montagu, também conhecido como Conde de Halifax, o filósofo John Locke e os matemáticos e astrônomos Nicolas Fatio de Duillier e David Gregory (WESTFALL, 2007).
No final da década de 1680, a Universidade de Cambridge passava por uma grave crise financeira e seus funcionários ficaram sem receber salários por algum tempo. Em vista disso, Newton começou a procurar um emprego em Londres, mas sem sucesso. Apenas em 1696, Charles Montagu, à época um dos responsáveis pelas finanças do Estado Inglês, nomeou-o como superintendente da Casa da Moeda, instituição inglesa responsável pela fabricação de dinheiro. Newton assumiu o posto em um período conturbado, já que o país também estava com problemas em suas finanças, por conta da guerra com a França e da intensa falsificação de moedas. Em 1699, ele tornou-se diretor da referida instituição, abrindo mão de suas ocupações no <i>Trinity College</i>(WESTFALL, 2007).
Enquanto estava como diretor da Casa da Moeda, Newton candidatou-se à presidência da <i>Royal Society</i> e foi eleito, mesmo com um grupo de membros que não o queria no cargo. A agremiação também passava por um período difícil – o número de sócios e a qualidade científica das discussões havia caído consideravelmente. Mais uma vez, as capacidades de organização e de administração de Newton foram muito importantes para contornar tal situação (WESTFALL, 2007).
Nesse contexto, ele também publicou outra obra – Opticks: or, <i>A Treatise of the Reflexions, Refractions, Inflexions and Colours of Light</i> (“Óptica: ou um Tratado sobre Reflexões, Refrações, Inflexões e Cores da Luz”). Ela continha grande parte de seus antigos estudos sobre óptica e saiu em 1704. Dois elementos podem ter contribuído para que Newton decidisse publicar tais escritos neste momento: o fato de estar ocupando uma posição de poder, enquanto presidente da <i>Royal Society</i>, e a morte de um dos maiores críticos de sua teoria das cores – Robert Hooke, que havia falecido em 1703. O <i>Opticks</i> atingiu um público maior do que os <i>Principia</i>, sobretudo, porque havia sido escrito no formato de texto e não em linguagem geométrica, com números e símbolos matemáticos, como o segundo livro. Do <i>Opticks</i> também faz parte um importante manuscrito de Newton sobre o método das fluxões. Essa foi outra temática que fez com que ele se envolvesse em uma longa discussão pelo protagonismo no desenvolvimento do cálculo – dessa vez com o filósofo e matemático saxão Gottfried Wilhelm Leibniz (WESTFALL, 2007).
Durante a década de 1670, Leibniz teve acesso a alguns dos escritos de Newton sobre o tema, graças a John Collins, matemático que propôs a publicação do trabalho de Newton sobre as séries infinitas. Além desse, Collins havia recebido diversos escritos do cientista e colocou-os à disposição de Leibniz. Contudo, não sabemos exatamente o que era novidade para Leibniz quando leu o material de Newton. O primeiro parece não ter registrado em suas anotações uma série de ideias fundamentais desses manuscritos, o que pode indicar que nenhuma delas fosse novidade para ele (WESTFALL, 2007).
Em 1684, Leibniz publicou seus escritos sobre cálculo, mas não citou as contribuições de Newton, o que despertou a insatisfação do segundo. As discussões acerca do tema, arrastaram-se por anos e, em 1711, Leibniz solicitou à <i>Royal Society</i> que reconhecesse sua prioridade no desenvolvimento do cálculo diferencial e integral. Mas Newton era o presidente da instituição, o que pode ter contribuído para que ela negasse o pedido de Leibniz, reconhecendo o próprio Newton como pioneiro nesse sentido. Alguns historiadores da ciência acreditam que Newton tenha inventado o método das fluxões por volta de 1665/66 e que Leibniz tenha desenvolvido os princípios do cálculo diferencial e integral, de forma independente, na década seguinte, antes de tomar conhecimento sobre o método elaborado por Newton (MORAES, BARROSO & ROSA, 2019).
Durante os anos seguintes à publicação do <i>Opticks</i>, Newton dedicou-se a rever alguns de seus trabalhos e a lançar novas edições dele e dos <i>Principia</i>. Ele também retomou seus estudos sobre teologia com profundidade e afinco, produzindo alguns escritos sobre o tema – um deles foi publicado depois de sua morte. No final da vida, Newton ficou conhecido como um homem que ajudava as pessoas que o cercavam, deu apoio financeiro, inclusive, a uma de suas meias-irmãs, depois que ela ficou viúva. Nos anos de 1720, sua saúde começou a se deteriorar, assim como sua frequência nas reuniões da <i>Royal Society</i>. Em 1725, desenvolveu uma inflamação nos pulmões e vinha sofrendo de sucessivas crises de gota. Algumas pessoas que tiveram contato com ele nesse momento, como Conduitt, registraram que Newton continuou estudando e escrevendo até bem próximo de sua morte, que ocorreu em março de 1727 (WESTFALL, 2007).
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