| Resumo: | Emilie Snethlage nasceu em Kraatz, distrito de Brandenburgo, Alemanha, no dia 13 de abril de 1868. De família luterana, perdeu a mãe, Elizabeth Rosenfeld, com apenas 4 anos e ela e os três irmãos receberam educação em casa, através de seu pai, o reverendo Emil Snethlage. A formação de Emilie foi bastante rígida, porém isso não lhe deixou marcas negativas. Pelo contrário, ela tornou-se uma pessoa dedicada não somente à ciência, mas também solidária aos irmãos, sobrinhos e amigos.
Aos 21 anos, Emilie começou a trabalhar como preceptora na Alemanha, Inglaterra e Irlanda, onde atuou por 10 anos. Em 1899, inscreveu-se na Universidade de Berlim para estudar história natural, foi uma das primeiras mulheres a frequentar a universidade na Alemanha. Tornou-se doutora em ciências em 1904, pela Universidade de Freiburg, e de cuja tese sobre musculatura de artrópodes foi bastante apreciada, o que lhe permitiu encontrar logo uma oportunidade de trabalho com o ornitólogo alemão Anton Reichenow. Assim, em 1905, tornou-se assistente de ornitologia no Museu de História Natural de Berlim. No mesmo ano, Emilie Snethlage ficou sabendo sobre a vaga de emprego no Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, atual Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém do Pará. Com o seu currículo excelente e com as boas indicações conseguiu a vaga e no mesmo ano mudou-se para o Brasil, com o intuito de fazer pesquisas de campo na Amazônia.
No Museu Paraense, Emilie Snethlage começou a desenvolver inúmeros trabalhos de campo, em expedições científicas pela Amazônia, a fim de coletar espécimes, principalmente de aves. Dentre as viagens que fez, a de 1909, foi a que teve mais destaque, porque permitiu à Emilie realizar a travessia entre os rios Xingu e Tapajós, contando apenas com a companhia dos indígenas locais em uma região que até então não havia sido cartografada, encontrando, entre outras surpresas, uma serra granítica de aproximadamente 500 metros de altura, que teve que ser ultrapassada com poucos recursos. Nas anotações desta viagem, a cientista pôde registrar o traçado do curso do rio Jamanxim, principal tributário da margem direita do Tapajós, e publicar um vocabulário comparativo dos índios Chipaya e Curuahé, trabalho este que obteve grande repercussão no meio científico internacional e, com isso levou à publicação de artigos de cunho etnográfico.
Em 1914, Emilie se destacou no trabalho sobre o Catálogo de Aves Amazônicas, composto por 1 volume contendo 530 páginas que inventariam 1.117 espécies. A obra serviu de referência aos estudiosos da ornitologia brasileira durante 70 anos e pretendeu reunir todas as espécies de aves da região descritas até o ano de 1913 e mencionadas na literatura científica. No mesmo ano da publicação do referido catálogo, tornou-se diretora do museu, e, ao mesmo tempo, a primeira mulher a dirigir uma instituição científica na América do Sul. Permaneceu no cargo até 1917, de onde saiu em 1918, após ter sido afastada devido ao rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e a Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial, tendo sido reintegrada em 1919, ao mesmo posto que ocupava.
Em 1922, aceitou o convite para trabalhar como naturalista no Museu Nacional de História Natural, no Rio de Janeiro, tendo como colegas Bertha Lutz e Heloísa Alberto Torres. Pela instituição, Emilie, teve a oportunidade de fazer longas viagens de pesquisa, percorreu vários estados do Brasil e da América do Sul, passou pelo Maranhão, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso, Goiás, atravessou um longo trecho do rio Araguaia e da ilha do Bananal, cujo trajeto incluía desde o Paraná, até Rio Grande do Sul, e também a Argentina e Uruguai. Seu trabalho resultou em mais de 40 artigos publicados no Brasil e no exterior onde, além de apresentar importantes estudos biogeográficos sobre a avifauna brasileira, Emilie pôde descrever cerca de sessenta espécies e subespécies de aves. Os espécimes coletados por ela estão hoje em diversas instituições brasileiras e estrangeiras.
Em 1926, Emilie Snethlage foi a segunda mulher a se tornar membro da Academia Brasileira de Ciências e membro da International Society of Woman Geographers e uma das primeiras mulheres cientistas a atuar no Brasil. Pode-se dizer que o inestimável conjunto da obra científica de Emilie Snethlage teve uma grande repercussão, não apenas na zoologia internacional como, também, no próprio processo de institucionalização da Ciência no Brasil.
Em 1929, aos 61 anos de idade, Emilie partiu em mais uma de suas viagens, uma expedição para percorrer o Rio Madeira, o único dos grandes afluentes ao sul do Amazonas que não tinha explorado. Antes de partir para a aventura, comentou com o então diretor do Museu Nacional, antropólogo e etnólogo Roquette-Pinto, que esta seria a sua última viagem. E durante a expedição, no dia 25 de novembro de 1929, na cidade de Porto Velho, Emilie Snethlage faleceu devido à insuficiência cardíaca.
Emilie Snethlage, considerada a “heroína do mundo das aves foi uma mulher e cientista extraordinária e revolucionária, quebrou paradigmas e barreiras. Mudou o rumo da história, deixou um legado que influenciou várias gerações, o qual se perpetua até hoje.
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