Florestas Inteligentes: o homem e a floresta em pé

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Título Original da Pesquisa
Florestas Inteligentes: o homem e a floresta em pé
O que é a pesquisa?

Conservar a biodiversidade e os recursos hídricos requer esforços de recuperação de florestas que foram suprimidas e a implantação de estratégias que aliem modelos de produção inovadores ao uso sustentável dos recursos naturais. Estimular a reinserção social de presos egressos do sistema penitenciário, resgatando sua autoestima por meio do trabalho remunerado e digno, e sensibilizar a sociedade acerca das condições vividas por essas pessoas é outro fator que também requer esforços. Sendo assim, como essas duas questões tão díspares se relacionam?

Para promover, de forma associada, a recuperação do meio ambiente e a reintegração social de presos, o projeto socioambiental Florestas Inteligentes integra a natureza e o homem. Esse trabalho visa gerar ocupação e renda para detentos, além de combater o envolvimento deles com a cultura carcerária, especialmente no que diz respeito às drogas e ao ócio, por meio da capacitação de agentes de restauração ambiental para implantação e manutenção de viveiros florestais e produção de mudas de árvores nativas.

Apoiado no tripé social, ambiental e econômico e em parcerias estabelecidas com o Centro de Progressão Penitenciária Dr. Edgar Magalhães Noronha de Tremembé (Pemano), o Centro de Progressão Penitenciária CPP II, a Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós (Esalq/USP) e o Instituto Brasileiro de Florestas, o Florestas Inteligentes produz e comercializa mudas adultas de árvores (a partir de 1m) − para uso em ações de compensação ambientale restauração florestal −, substrato para alimentar o crescimento dessas mudas e vasos biodegradáveis em casca de arroz, cumprindo, dessa forma, sua missão de colocar floresta e homem em pé. A parceria com a Esalq/USP oferece aos reeducandos cursos de viveirismo, horticultura, paisagismo e restauro florestal, ministrados na própria penitenciária, preparando-os para o retorno ao mercado de trabalho. Tremembé fica no Vale do Paraíba, região rica em viveiros florestais.

A comunidade que vive ao redor das penitenciárias também é beneficiada pelo projeto Florestas Inteligentes, pois as mudas das árvores são oriundas de sementes colhidas por famílias carentes da região. Uma oportunidade para trabalho e renda de muitas pessoas, incremento à economia local e crescimento das pequenas propriedades rurais. Da mesma forma, programas sociais são desenvolvidos atrelados à produção. Em Tremembé, o Programa Equipe Floresteens capacita cerca de 400 jovens adolescentes de escolas públicas em questões ambientais. Os que se destacarem no curso receberão bolsas de estudo para cursar ensino técnico ou superior.

Como é feita a pesquisa?

O ciclo de produção das mudas começa com os coletores de sementes e suas famílias, que recebem treinamento e equipamento de segurança. Essas sementes são compradas em sua totalidade pelo Florestas Inteligentes e depois cultivadas e cuidadas por reeducandos dentro da penitenciária de Tremembé, o Pemano. A seleção dos beneficiados, baseada em bom comportamento, prioriza internos em regime semiaberto que estão cumprindo a fase final de detenção.

O projeto foi implantado em uma área de 7,8 hectares, o equivalente a oito campos de futebol, onde 53 detentos cultivam mudas de árvores da Mata Atlântica. O viveiro de mudas conta, atualmente, com quase dois milhões de árvores, de cerca de 208 espécies exóticas e nativas, como o Ipê Amarelo, o Jequitibá e a Embaúba, para projetos de restauração da Mata Atlântica ou de compensação ambiental e neutralização de emissões de carbono. Nessa área, destinada ao projeto, além do viveiro, estão instaladas a fábrica de substrato − que fertiliza e enriquece as mudas das árvores −, a fábrica de tutores − que são as hastes que sustentam as mudas das árvores durante seu crescimento − e a fábrica de vasos biodegradáveis. O substrato é composto por terra preta, argila, areia lavada, vermiculita, cama de cogumelo, esterco ovino, superfosfato simples, calcário e casca de arroz carbonizada, garantindo a nutrição adequada ao desenvolvimento das sementes e mudas.

Os berçários de mudas são cobertos por telas metalizadas que controlam o microclima nos viveiros, proporcionando uma sombra uniforme, a circulação de ar e promovendo a transmissão de luz difusa. Dessa forma, a cobertura confere às mudas raízes abundantes e bem formadas, caules bem estruturados e folhas saudáveis. Quando transferidas para as bandejas com substrato, as mudas são encaminhadas para as áreas irrigadas de rustificação. Essa etapa permite crescimento exuberante das mudas e adaptação às intempéries do clima, para conferir a elas um bom desempenho e condições de plantio definitivo.

Florestas Inteligentes desenvolveu também a tecnologia para substituir os saquinhos plásticos por vasos biodegradáveis feitos a partir do reaproveitamento de casca de arroz e material orgânico, que podem ser plantados com as mudas, transformando-se em substrato para alimentar o crescimento das plantas. A água utilizada para a produção dos vasos é empregada em circuito fechado, com reutilização máxima.

A parte da qualificação dos reeducandos é feita na sala “O homem e a natureza em pé”, que foi construída pelos próprios integrantes do projeto e abriga quatro cursos de capacitação profissional nas áreas de horticultura, jardinagem, restauro florestal e viveirismo. Cada módulo tem duração de 32 h e as lições são passadas por mestrandos da Esalq/ USP, uma das parceiras do projeto.

Qual a importância da pesquisa?

O projeto socioambiental Florestas Inteligentes já produziu 1,7 milhão de mudas, beneficiou mais de 50 famí¬lias e promoveu a retirada de milhões de toneladas de CO2 da atmosfera. Os presos, que cumprem pena em regime semiaberto, vivem os seus dias de maior realização pessoal dentro da própria prisão e as suas tarefas no viveiro contribuem para a reinserção deles no mercado de trabalho. O assunto criminalidade dá espaço para a valorização e fortalecimento dos vínculos entre família, sociedade e meio ambiente.

Os participantes do projeto conquistam o direito de ter uma redução de pena de um dia a cada três trabalhados. Durante o período em que trabalham no Florestas Inteligentes, recebem um salário mínimo e a chamada poupança liberdade (10% do salário mínimo guardado).

Hoje já são partes da cadeia produtiva 100 reeducandos, quatro famílias de coletores de sementes e dezenas de profissionais envolvidos, entre mestrandos e doutores das engenharias agronômica, florestal e ambiental. Florestas Inteligentes recebeu o Prêmio Mário Covas de Excelência em Gestão Pública no ano de 2010 e, em setembro de 2012, inaugurará sua segunda unidade de produção no Centro de Progressão Penitenciária III, em Bauru (SP), antigo Instituto Penal Agrícola (IPA).

Florestas Inteligentes é modelo na associação da restauração florestal à inclusão social, tornando verdadeiro o compromisso socioambiental ao educar, qualificar e gerar, aos presidiários, perspectivas de plantar um novo futuro.

Pesquisador(es) Responsável(eis)

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Data de publicação