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Custo do desmatamento na Amazônia

O que é a pesquisa?

A Floresta Amazônica se distribui por diversos países, tendo uma porção considerável dentro do território brasileiro. Ela faz parte do bioma “floresta tropical úmida” e é rica em biodiversidade, possuindo pelo menos 40 mil espécies de plantas, 427 mamíferos, 1.294 aves, 378 répteis, 427 anfíbios, cerca de 3 mil peixes e mais de 96 mil invertebrados já descritos. Além da grande quantidade de seres vivos que a região abriga, a floresta também presta serviços diretos e indiretos ao ser humano.

Dentre os serviços diretos podemos citar a disponibilidade de madeira, frutos, espécies vegetais e animais que servem para a criação de produtos comerciais ou para pesquisa científica. Indiretamente, a floresta contribui para o equilíbrio do solo, reciclando nutrientes produzidos pela mata e permitindo que espécies vegetais cresçam mesmo na presença de solo infértil. A presença da vegetação também impede que, durante as chuvas, a terra seja levada para os rios, afetando a oferta de água proporcionada por estes. Além disso, a Amazônia tem importante papel na regulação climática, pois armazena CO2 por meio da fotossíntese das plantas. Mais relevante ainda é a maneira como a floresta amazônica regula a entrada de água no Brasil.

Quando os ventos alísios, carregados de umidade, chegam dos oceanos, eles despejam água no solo da floresta. Se não houvesse árvores, essa massa de ar se tornaria cada vez mais seca à medida que avançasse sobre o território continental. Contudo, as árvores que existem na Amazônia possuem raízes profundas e conseguem captar a água que penetra no solo, sendo parte dela usada em seu metabolismo e o restante eliminado na atmosfera por evapotranspiração. Assim, o ar é mantido úmido pela floresta enquanto entra no continente, sendo posteriormente desviado pela Cordilheira dos Andes para as Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, contribuindo – e muito – para assegurar o regime de chuvas nessas localidades (ver Figura 1).

 

Figura 1 - Este esquema representa como se formam os chamados "rios voadores" no território brasileiro. Primeiro, os ventos alísios (seta azul grossa) chegam pelo norte do país. As pequenas setas azuis voltadas para cima mostram a umidade proveniente dos oceanos que é carregada por esses ventos. Quando essa umidade chega ao continente, ela sofre precipitação (representada pelas nuvens de chuva). Devido à presença de grandes árvores na floresta amazônica, parte da água da chuva que penetra no solo é devolvida à atmosfera (observe as pequenas setas azuis sobre a floresta amazônica). Isso permite que os ventos carreguem a umidade até serem desviados pela Cordilheira dos Andes, sendo então redirecionados para as Regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do Brasil, assim como para algumas áreas de países vizinhos. 
 

No Brasil, o principal responsável pelo desmatamento amazônico tem sido a pecuária. Enquanto alguns consideram a região como inadequada para essa atividade, outros argumentam que a pecuária é importante para o país e principalmente para o desenvolvimento da região. Os pesquisadores Alisson de Castro, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e Daniel Andrade, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), realizaram um estudo sobre quais seriam os impactos econômicos de se desmatar a região, considerando os serviços diretos e indiretos que a floresta oferece à população.

 

Como é feita a pesquisa?

A pesquisa utilizou um método chamado de valoração econômica de serviços ecossistêmicos, que consiste em atribuir valor, em dinheiro, aos recursos ambientais. Quando um fazendeiro, por exemplo, decide transformar uma área de floresta em pastagem, ele não leva em conta o prejuízo que causa à sociedade, pois individualmente ele é pequeno. Contudo, se vários produtores de gado têm a mesma atitude, a floresta pode sofrer danos graves, afetando boa parte da população. Assim, saber o custo econômico da perda florestal pode ajudar os produtores em suas tomadas de decisão.

Para o cálculo, os pesquisadores usaram estudos anteriores que estimaram o valor econômico de 17 diferentes serviços ecossistêmicos de 16 biomas. A estimativa é feita da seguinte forma: se a presença de floresta de uma área, por exemplo, aumenta a produção de madeira em uma área próxima em 50 reais, então os proprietários deveriam estar dispostos a pagar até 50 reais para sua conservação. São usadas também outras formas mais complexas de calcular quanto valem os benefícios dos recursos naturais. Mesmo assim, os autores argumentam que os valores encontrados acabam sempre sendo subestimados por conta da dificuldade em se converter tudo o que a natureza pode oferecer em unidades monetárias. Os números originais utilizados na pesquisa foram expressos em dólares por hectare por ano, e os autores usaram essas medidas como base para calcular o custo do desmatamento amazônico em reais.

Os pesquisadores montaram um gráfico que mostra o custo econômico causado pelo desmatamento ao longo dos anos (Figura 2). Em 2014, último ano em que foram calculadas as perdas, seu valor somou 2,66 bilhões de reais, sendo a diminuição na ciclagem de nutrientes a sua principal causa (Figura 3). Como dito anteriormente, a Floresta Amazônica tem a capacidade de reciclar seus próprios nutrientes, permitindo a existência de grandes espécies vegetais em uma região em que o solo é muito pobre.

 

Figura 2 – Custo econômico do desmatamento (CED) total ao longo dos anos, em bilhões de reais. 

 

Figura 3 – Série histórica com os custos, em bilhões de reais, do desmatamento amazônico. Cada uma das diferentes cores do gráfico representa o valor dos serviços ecossistêmicos perdidos em função da degradação da Amazônia. 

 

Qual a importância da pesquisa?

A pesquisa contribuiu para mostrar o valor que a Floresta Amazônica tem para a população, indo muito além da oferta de produtos madeireiros e frutíferos. A presença de mata na região contribui para a estabilidade do solo, qualidade da água, sobrevivência de espécies e distribuição de chuvas pelo território nacional.

Mesmo com toda essa importância, a preservação da floresta pelo Brasil e seus vizinhos continua um desafio, pois os produtores rurais locais só são capazes de perceber o seu benefício próprio de explorar a região, sendo difícil levar em conta nas suas decisões os serviços que a mata oferece para o restante do país – e do mundo. Leis como o Código Florestal, que exige que em parte das propriedades rurais seja mantida vegetação, são difíceis de serem monitoradas, ainda mais em uma região que ainda apresenta baixa infraestrutura, como o Norte do Brasil.

Calcular o valor econômico das áreas da floresta amazônica pode contribuir para iniciativas em que o governo possa vir a pagar aos proprietários de terras para que mantenham as florestas em suas propriedades intactas. Considerando que o desmatamento poderia tornar solos inutilizáveis e diminuir a disponibilidade de água na própria região e em regiões do Sul, Sudeste e Centro-Oeste brasileiro, investir esse dinheiro em preservação pouparia gastos futuros com irrigação artificial, fertilização do solo e eventuais perdas em recursos exploráveis cientificamente e comercialmente.

Alguns municípios brasileiros têm iniciado programas de preservação com essa estratégia, e têm obtido resultados relevantes. Outro caso semelhante é o de Nova York, nos Estados Unidos, que enfrentava uma crise hídrica na década de 1990. Para economizar no tratamento de água que poderia ser fornecida aos seus residentes, a cidade optou por investir na preservação das áreas de onde vinham as águas: a cadeia de montanhas de Catskill. Como resultado, Nova York possui hoje uma das águas de maior qualidade do planeta, e a medida poupou um gasto de bilhões de dólares.

 

Publicado em 30 de janeiro de 2019.