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Aedes aegypti combatendo a dengue?

O que é a pesquisa?

A proliferação do mosquito Aedes aegypti tornou-se um problema de saúde pública, pois ele é o principal transmissor de doenças como a dengue e a febre chikungunya, que afetam milhares de pessoas no Brasil. Uma das grandes dificuldades no controle do Aedes aegypti se deve à falta de combate aos criadouros do mosquito – sobretudo em locais fechados, escondidos ou inacessíveis – pelos cidadãos e agentes de saúde durante as campanhas de controle, permitindo a manutenção de populações de mosquitos adultos.

Preocupados com os impactos sociais e econômicos da dengue, pesquisadores do Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e o Smithsonian Tropical Research Institute, desenvolveram método inovador de combate ao A. aegypti, no qual os próprios mosquitos são utilizados para combater os criadouros inacessíveis. As fêmeas são atraídas até baldes com larvicida em pó, nocivo apenas às larvas do mosquito. Ao deixarem os baldes, as fêmeas carregam o larvicida até outros criadouros, espalhando-o e evitando, assim, o aumento da população de mosquitos adultos.

Como é feita a pesquisa?

Em um bairro de Manaus (AM), foram distribuídos 100 pequenos baldes com um pouco de água para atrair as fêmeas do mosquito para desovar. As paredes internas dos baldes foram cobertas com um pano preto aveludado, no qual foi aplicado o larvicida pyriproxyfen, triturado até a consistência de um pó muito fino. Esses baldes foram denominados de estações de disseminação, muito potentes contra as larvas dos mosquitos, mas sem efeito sobres os adultos. Quando o mosquito adulto pousa na superfície da "estação de disseminação", partículas do inseticida grudam nas pernas e no corpo do inseto. Como as fêmeas de Aedes visitam muitos criadouros para depositar seus ovos, elas levam o inseticida para esses criadouros, que se tornam armadilhas letais para as larvas do mosquito.

 

Figura 1. Disseminação do larvicida pyriproxyfen pelo mosquito Aedes aegypti. Imagem: Fernando Abad-Franch. 

A avaliação do efeito do inseticida sobre a população de Aedes teve duração de 20 meses. Durante 10 meses antes da colocação das estações de disseminação, 150 criadouros foram monitorados. Os pesquisadores acompanharam o crescimento das larvas, registrando a quantidade delas que morreu e a que chegou à fase adulta. A partir desses dados, foi calculada a taxa de mortalidade das larvas. Só então as estações de disseminação foram espalhadas pelo bairro por um período de 4 meses. Os mesmos 150 criadouros continuaram a ser monitorados e 94% deles foram contaminados com o larvicida disseminado pelos mosquitos, sendo observado, ao final de 10 meses da avaliação, aumento  da mortalidade de larvas e  diminuição da população de mosquitos adultos de 3.000 para 100 por mês, confirmando a eficiência do inseticida espalhado pelas fêmeas.

Qual a importância da pesquisa?

O inseticida pyriproxyfen impede o desenvolvimento das larvas, que morrem antes de atingir a fase adulta. O produto é considerado seguro e a sua aplicação, recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), não oferece risco para a saúde humana. Um grama do larvicida é suficiente para tratar 2 mil litros de água. Também não há risco para animais domésticos, porque as doses com algum perigo são muito maiores do que aquela contida nas partículas do larvicida disseminadas pelos mosquitos. Adotado pelo Ministério da Saúde, o pyriproxyfen já é utilizado pelos agentes de controle de criadouros conhecidos, mas não atinge os indetectáveis ou inacessíveis.

Essa nova estratégia de combate é mais eficaz porque alcança uma quantidade maior de criadouros do A. aegypti, condição fundamental para reduzir a relação entre o número de mosquitos transmissores e o número de humanos suscetíveis a um valor  aceitável. Essa redução é um aspecto crítico na prevenção de surtos e epidemias.

O uso das estações de disseminação é mais promissor para reduzir a população de mosquitos adultos  quando combinado às ações tradicionais de controle, como o tratamento direto dos criadouros, borrifação ou fumacê de inseticidas. Além da dengue, existem outras doenças transmitidas por mosquitos. A pesquisa mostrou bons resultados contra A. aegypti, Aedes albopictus e Culex. Os dois primeiros são vetores da dengue, da febre amarela, do vírus Chikungunya e provavelmente do vírus Zika que entrou recentemente no Brasil. Diferentes espécies de Culex transmitem vários vírus, como o do Nilo Ocidental, e filárias que causam, por exemplo, a filariose linfática. O controle desses mosquitos pode ser mais eficiente com o uso de pyriproxyfen disseminado pelos próprios mosquitos nas áreas urbanas e suburbanas. O uso em outros ambientes, como as áreas rurais, ainda precisa ser avaliado, mas alguns testes na África indicam que o produto é também eficaz contra os vetores da malária. 

Publicado em 27 de agosto de 2015.