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Biólogos marinhos estudam efeito de diversos microrelevos de costão rochoso no desenvolvimento de comunidade onde estão presentes dois potenciais bioinvasores

O que é a pesquisa

 Os ambientes de litoral onde vivem a maioria dos chamados organismos bentônicos (moluscos, animais de concha espécies de algas, esponjas, anêmonas, enfim, a fauna marinha que vive sobre as pedras, na areia, ou no fundo) são alguns dos ecossistemas mais produtivos. Entre estes, os costões rochosos são considerados um dos mais importantes por abrigarem muitas espécies de grande importância econômica e ecológica. Este ecossistema de zona entre-marés apresenta grande biomassa (quantidade de seres vivos) e elevada produção desses animais.

A grande diversidade de espécies presentes nos costões rochosos faz com que, neste ambiente, ocorram intensas interações entre os organismos que ali residem, por causa da limitação de espaço para se fixarem, da exposição a predadores, ou da forte ação de fatores abióticos (marés, ondas, dessecação, temperatura,, etc.) ao longo do gradiente de transição do mar para a terra.

A zona entre marés é dividida em três regiões: infralitoral (região que fica raramente exposta), mediolitoral (fica exposta na maré baixa) e supralitoral (região que fica raramente submersa). De acordo com as adaptações que apresentam, os organismos se distribuem nelas, em certos casos formando faixas características, onde cada tipo de organismo é predominante.

Nos costões rochosos do sul do estado do Rio de Janeiro , normalmente no supralitoral, encontramos na faixa superior principalmente organismos móveis fixos como a Ligia (baratinha da praia) e a Litorina; mais abaixo, vemos uma faixa mais escura de algas unicelulares filamentosas, seguidas de uma faixa ocupada por animais da espécie Chtamalus sp., um tipo de craca de pequeno porte.

Na faixa superior do mediolitoral encontramos uma faixa de outro tipo de craca, Tetraclita stalactifera e depois uma faixa de bivalves (animais com duas conchas que se fecham), e algas ocupando toda a região.

Na parte inferior do médio litoral e no infralitoral vemos uma grande diversidade de espécies fixas (anêmonas, esponjas...) e móveis como alguns equinodermas (como o ouriço e a estrela-do-mar), não sendo mais possível delimitar zonas ou faixas.

A colonização da rocha nua por cracas, moluscos de concha fixa e outros animais desse tipo cria uma heterogeneidade espacial e diversos microhabitats que permitem a existência de uma grande fauna associada.

O relevo da superfície do substrato pode facilitar a fixação de diferentes organismos na rocha nua. Algumas larvas podem se fixar mais facilmente em fendas ou pequenas depressões (furos), enquanto outras preferem estruturas em alto relevo, como por exemplo, a carapaça de uma craca. Além disso, alguns organismos atraem quimicamente outros de sua mesma espécie ou gênero, formando grandes agregados, que por sua vez geram outros microhabitats.

Recentemente porém, têm se observado, fenômenos como a ampliação da distribuição de várias espécies em detrimento de outras, e mudanças na estrutura das comunidades nativas. Uma das causas pode ser a introdução de espécies marinhas exóticas.

As espécies exóticas podem ser consideradas uma ameaça à biodiversidade na medida em que seu crescimento acentuado cause o desaparecimento de espécies nativas, pela ocupação de seus nichos.

Em Angra do Reis, um gastrópode (molusco com concha torcida, como os caramujos) da família Vermetidae passou a ocupar uma grande faixa dos costões onde normalmente eram achadas as Tetraclitas stalactifera, que agora ocupam uma faixa superior.

Como descrições da região anteriores a 1989 não registravam vermetídeos na área, isso possivelmente indica uma introdução recente no ambiente, por alguma fonte externa de espécies. Além disso, a rápida ocupação e distribuição dá indícios de se tratar de um bioinvasor.

Observações em placas do recife formado pelas conchas dos vermetídeos revelaram a existência de grandes T.stalactifera em sua base, mostrando que estes cresceram sobres elas. Pôde-se também notar que entre os vermetídeos existiam alguns Isognomon bicolor, um bivalve que também é uma espécie que possivelmente foi introduzida no Brasil. E em Arraial do Cabo, estudos mostraram que este bivalve compete com os mexilhões, que em algumas localidades estão sendo excluídos.

Para entender como se dá essa ocupação do costão e que interações ocorrem entre estas espécies, biólogos do Laboratório de Benthos do Departamento de Biologia Marinha do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro estão fazendo um estudo da sucessão ecológica (isto é, de como as diversas espécies se sucedem na ocupação do ambiente) na Ilha do Brandão, em Angra dos Reis. Eles acompanham o recrutamento das espécies (isto é, as larvas que conseguem se fixar e sobreviver no estágio inicial de colonização) e o desenvolvimento da comunidade sob diversos tratamentos da superfície do substrato (rocha nua lisa, com furos ou, ainda, com cracas artificiais fixadas).

Como é feita a pesquisa

 Para o monitoramento do adensamento de espécies colonizadoras nas faixas do costão rochoso foi necessário o desenvolvimento de uma nova metodologia utilizando fotografias digitais. A duração do monitoramento do costão rochoso da Ilha do Brandão será de um ano e quatro meses (de Março de 2003 a junho de 2004), com acompanhamento mensal (na maré mais baixa).

Foram preparadas três tipos de áreas (chamadas “tratamentos”), cada uma apresentando condições diversas para a atração e o recrutamento da espécie, sendo que os resultados serão comparados entre si, e aos de um controle (área onde não há intervenção dos cientistas, e que serve para fins de comparação, para ver se não houve impacto de outras variáveis ambientais, alterando os resultados).

Para isso foram abertas valas de 36 centímetros por 1 metro e 20 centímetros no costão, na zona entre-marés. Estes locais foram raspados com escova de aço (retirando todas as espécies ali existentes), para serem montados os seguintes tratamentos: no primeiro,foram aparafusadas 45 cracas artificiais (feitas com carapaças de Tetraclita mortas) distribuídas uniformemente na vala, na sua faixa de ocorrência natural. No segundo, também uniformemente distribuídos, foram feitos 110 furos, para criar rugosidade no substrato (a rocha) e facilitar o assentamento de larvas; e no terceiro, o substrato é deixado liso, apenas raspado. As regiões controle são demarcadas para acompanhar a evolução das comunidades sem as alterações da pesquisa. Os pontos estão aleatoriamente distribuídos no costão, mas respeitando a ordem dos tratamentos.

O monitoramento em campo é feito por coleta de dados via fotografias digitais com uma máquina fotográfica fixada a uma caixa especial de acrílico e vidro projetada pelos pesquisadores, a fim de evitar que a máquina entre em contato com a água, além de permitir que a caixa corra por um trilho, garantido a mesma distancia e foco da foto e a melhor delimitação das áreas de estudo. Tanto a caixa como os pesquisadores ficam presos ao costão por meio de cabos de segurança e pinos de alpinismo, previamente fixados.

A análise dos dados será feita no Laboratório de Bentos do Instituto de Biologia da UFRJ, com auxílio de um programa de edição de imagens, que permite grandes ampliações das fotos mantendo alta resolução, além de outros recursos como a possibilidade de medir os organismos.

Os organismos serão identificados ao menor nível taxonômico possível. Aqueles que não puderem ser identificados pela foto, serão coletados e identificados em laboratório.

Será avaliado o percentual de cobertura do substrato (o costão rochoso) e acompanhado o adensamento de organismos ao longo do tempo de estudo, assim como seus crescimentos e interações que venham a ocorrer. As alterações que ocorram ao longo do tempo serão identificadas pela sobreposição das fotos de meses sucessivos, e marcadas em esquemas.

Importância da pesquisa

 Pelos indícios existentes, Isognomon bicolor e Petaloconchus sp. (Vermetidae), possivelmente são espécies exóticas que aparentemente têm causado alterações na estrutura das comunidades nativas do litoral sul do estado do Rio de Janeiro.

Conhecer a dinâmica de colonização e as possíveis interações populacionais nos estágios sucessionais das comunidades, bem como relacioná-las com os fatores que determinam a distribuição atual dessas espécies no ambiente em estudo, são condições importantes para avaliar o impacto da bioinvasão destas espécies sobre a fauna e flora de costões rochosos do sul do Rio de Janeiro.

O sucesso da pesquisa permitirá:

1. acompanhar a sucessão ecológica e o recrutamento das espécies colonizadoras do costão rochoso na faixa do mediolitoral;

2. determinar se a presença das cracas facilita a fixação e desenvolvimento dos vermetídeos ou de I. bicolor.;

3. determinar a influência da heterogeneidade do substrato na estruturação da comunidade;

4. compreender as dinâmicas populacionais das espécies ao longo do tempo, e as interações entre os indivíduos de uma mesma espécie e entre as espécies;

5. determinar se há um recrutamento preferencial de uma das espécies ou se a distribuição das cracas na base é apenas uma situação circunstancial; e

6. avaliar o impacto de possíveis espécies invasoras na comunidade do costão rochoso.

Texto de divulgação científica publicado em 12 de fevereiro de 2004.