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Segunda, 16 Setembro 2019 15:08

Pesquisadora apresenta os peixes venenosos do Brasil e traz novidades para o tratamento dos acidentes

005 Monica FerreiraOs acidentes com peixes peçonhentos são comuns no Brasil. Os peixes que mais causam acidentes no país são os bagres, entretanto os causados pelo peixe chamado niquim são um dos que têm piores efeitos, pois a ferida pode evoluir rapidamente para uma necrose. Esse peixe se esconde na areia e, por não ser visto, os banhistas e pescadores acabam tocando ou mesmo pisando nele, que, por possuir espinhos nas suas costas e nas laterais do seu corpo, provoca as lesões.

Desde 1996, a pesquisadora Mônica Lopes Ferreira, do Instituto Butantan (SP), vem estudando os peixes venenosos do litoral brasileiro, como o niquim, o peixe-escorpião, os bagres e as arraias. Seus estudos fazem do Brasil um dos países pioneiros em pesquisas sobre peixes peçonhentos. A pesquisa já desenvolveu um soro único que neutraliza os venenos desses peixes peçonhentos, bem como auxilia no tratamento das intoxicações. Estes estudos vêm contribuindo para o conhecimento de como os venenos agem no corpo das pessoas acidentadas, o que ajuda a buscar tratamentos que possam combater as lesões causadas pelas toxinas presentes nos venenos.

Em entrevista ao Canal Ciência, a pesquisadora Mônica Ferreira fala sobre os peixes peçonhentos e sua motivação para estudá-los.

CANAL CIÊNCIA - Como surgiu a sua curiosidade pelos peixes peçonhentos?

Mônica Lopes Ferreira - De férias em Maceió, minha cidade natal, tomei conhecimento sobre a existência de um peixe que causava muitos acidentes. Esse peixe, de nome científico Thalassophryne nattereri, é conhecido como niquim. Os índios assim o chamaram. O nome vem do tupi-guarani e significa ni = feio e quim = espinhoso.  Esse peixe causa acidentes porque, diferente de tantos outros, tem uma característica especial. É um peixe peçonhento. Possui quatro espinhos, dois localizados no dorso e um em cada lateral. Todos os espinhos são ocos e estão conectados a glândulas de venenos. Verdadeiras bolsas, repletas de substâncias tóxicas para nós humanos. Banhistas, mergulhadores e principalmente pescadores entram no ambiente desses animais, pisam ou tocam nesses peixes que costumam ficar enterrados na areia. Eles sentem-se agredidos e injetam seu veneno por meio dos espinhos. Foi esse o cenário que encontrei em 1996 em Maceió. Essa história de “um peixe que causava acidentes, para os quais não havia tratamento” despertou meu interesse, minha curiosidade e me estimulou a iniciar uma pesquisa científica sobre os peixes peçonhentos.

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Peixe niquim e os espinhos localizados no dorso e nas laterais do seu corpo. Quando entram em contato com a pele, os espinhos são projetados, liberando as toxinas. Fonte: Mônica Lopes Ferreira.
 

Poderia nos contar mais sobre os peixes peçonhentos que ocorrem no Brasil?

Sabemos que mares e oceanos representam 70% da superfície de nosso planeta. Os peixes constituem metade do número de vertebrados na Terra. Temos cerca de 22.000 espécies conhecidas, divididas em 50 ordens e 445 famílias. Destas, mais de 200 espécies são consideradas peçonhentas ou venenosas. Com 8.500 km de costa, águas temperadas e tropicais, o Brasil praticamente abriga todas as famílias e gêneros desses peixes. De norte a sul do país encontramos peixes peçonhentos, aqueles popularmente chamados de niquim, peixe-sapo, bagre, arraia, beatriz, peixe-escorpião, entre outros. São encontrados em águas marinhas, fluviais e salobras, muitas vezes vivendo em locais rasos, em rochas, camuflados ou enterrados, o que aumenta a chance de acidentes.

 

Por que é importante estudar os peixes peçonhentos?

Esses animais possuem importância médica pelos acidentes que provocam em humanos, uma vez que são incapacitantes, mantendo a vítima afastada do trabalho por semanas ou meses, além de acarretar importantes sequelas pela ausência de uma terapia específica para tratamento deste tipo de acidente. Estudar os peixes peçonhentos, seus venenos, propor uma terapia adequada ao acidentado, descobrir nos venenos substâncias com aplicação farmacológica, são metas importantes das pesquisas que desenvolvo.


Como o Instituto Butantan realiza estas pesquisas?

Os estudos são realizados por etapas. Primeiro, descrevemos as manifestações clínicas, locais ou sistêmicas, provocadas pelo envenenamento, e estudamos o mecanismo de ação de cada veneno. Depois, os componentes químicos dos venenos são isolados e caracterizados. Utilizamos os venenos e as toxinas como antígenos para entendermos como agem no sistema imunológico e prospectamos toxinas com potencial para uso terapêutico. Trabalhamos em uma abordagem multidisciplinar, utilizando conhecimentos principalmente das áreas de toxinologia, imunologia, farmacologia, bioquímica e biologia molecular. Assim, procuramos melhorar a compreensão dos mecanismos imunológicos relacionados aos fenômenos inflamatórios e a importância destes para a função dos tecidos biológicos. Também desenvolvemos pesquisas que possibilitem compreender com mais detalhes como os venenos e toxinas interagem com o sistema imune.

 

Qual a importância da pesquisa e suas possíveis aplicações?

Os resultados das pesquisas realizadas com venenos e toxinas do niquim, das arraias, dos bagres e do peixe-escorpião estão contribuindo para uma caracterização dos componentes tóxicos dos seus venenos, gerando assim um banco de dados de proteínas e peptídeos que compõem esses venenos e toxinas. Essas pesquisas podem contribuir para a ampliação dos conhecimentos na área de toxinologia, já que diversas toxinas encontradas em diferentes espécies de peixes já foram identificadas e são semelhantes entre as diferentes espécies de peixes venenosos. Os resultados que temos obtido têm gerado importantes conhecimentos sobre as lesões e possibilitaram também uma visão da complexa rede de interações existente no sistema imunológico. Utilizando os venenos ou suas toxinas, estamos conseguindo compreender como o sistema imunológico dos acidentados responde ao veneno. Tal conhecimento ajuda a desenvolver soros e tratamentos mais eficazes.

 

Poderia destacar algum peixe venenoso para o qual a pesquisa tem apresentado resultados promissores?

No veneno do niquim descobrimos uma nova família de proteínas, as ‘natterinas’. Estas proteínas também são encontradas em peixes não peçonhentos, pelo menos em alguma fase da sua vida. Esta é a primeira toxina descrita em veneno de peixe. Sua descoberta possibilitou o melhor entendimento dos mecanismos da resposta imune de resistência a patógenos em diferentes peixes importantes da indústria pesqueira mundial, o que favorece a geração de melhores terapias e vacinas. A natterina pode combater bactérias causadoras de doenças em humanos, como certos vibriões. Um composto derivado desta proteína possui atividade anti-inflamatória e poderá ser utilizado no tratamento de doenças como asma e esclerose múltipla.

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Os peixes peçonhentos estudados pela equipe da Dra. Mônica, no Instituto Butantan, e as regiões do Brasil onde eles ocorrem. Fonte: Mônica Lopes Ferreira.
 

Título original da pesquisa
Caracterização Farmacológica, Bioquímica e Imunológica de Venenos e Toxinas de Peixes Peçonhentos do Brasil

Instituições responsáveis
Unidade Imunorregulação - Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada do Instituto Butantan (SP), UNIFESP de São José dos Campos, UNESP de Botucatu e Universidade Federal do Tocantins

Fontes financiadoras: FAPESP e CNPq

Sugestões de Leitura

Peixes peçonhentos

Instituto Butantan

Centro Virtual de Toxinologia - UNESP

Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Toxinas

Última modificação em Quinta, 03 Outubro 2019 10:27

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