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Com um órfão africano em Zambezia - 25 de julho de 1963

Câmara Cascudo

Luís da Câmara Cascudo nasceu no dia 30 de dezembro de 1898, na cidade de Natal, Rio Grande do Norte. O primeiro banho foi com água morna, temperada com vinho do Porto — para ficar forte — e com um patacão de prata do Império — para nunca lhe faltar dinheiro. No batizado, o padre abençoou com nome em latim informado pelo padrinho: Ludovicus. O pai, delegado e comerciante, teve com a esposa outros três filhos que morreram de difteria. Filho único de família rica, recebeu educação privilegiada. Proibido de correr, pular, andar descalço, subir em árvores — pelo medo dos pais de que viesse a ter o mesmo fim dos irmãos —, sua obediência era aparente, já que enquanto brincava no quarto cheio de brinquedos, fugia para tomar banho frio, brincar na rua e pescar no rio Potengi. “Meu avô paterno era um dos chefes do Partido Conservador [...] que também tinha um apelido de Partido Cascudo, que quer dizer teimoso, obstinado, e deram para chamar o meu avô de ‘o velho Cascudo’ [...] Assim, não há família Cascudo, é um apelido que se tornou patronímico.” Frequentou o colégio Atheneu Norte-Rio-Grandense, onde se tornaria professor de história e diretor, bem como alvo de críticas de colegas que não achavam adequado falar aos alunos sobre lobisomem, saci-pererê e mula-sem-cabeça.

Em 1913, a família se mudou para uma chácara no bairro do Tirol. “Fundou-se o Principado do Tirol, com toda a hierarquia aristocrática [...]. Meus primeiros artigos e livros nasceram nesse clima. Para ali fui rapazinho de 15 anos e saí aos 34, casado e com um filho.” Passou a escrever uma coluna sobre cultura e literatura no jornal A Imprensa. “Meu pai fundou um jornal em 1914 [...] com 17 anos eu era repórter. O hábito e a vida de repórter, junto às leituras de movimento, fizeram de mim a curiosidade viva pelo povo, ouvindo, anotando e divulgando.” Ingressou no curso de medicina em Salvador (1918), Bahia. Queria ser doutor, ter um laboratório e pesquisar, sonho que demandava recursos dos quais não mais dispunha. Abandonou a medicina no último ano. Publicou seu primeiro livro em 1921 — Alma patrícia. Foi para a Faculdade de Direito do Recife, sobrevivendo com as economias pessoais. Formou-se em 1928. “A pobreza de meu pai, altiva e nobre, não me permitia abandoná-lo e viajar para o sul, vencer no Rio. Filho único devia retribuir em assistência quanto tivera em pecúnia e carinho. Fiquei, definitivamente e sem recalques, provinciano. Ia ser até, a velhice, professor jagunço.” Após a falência do pai, em parte causada pela quebra da bolsa de valores norte-americana em 1929, prosseguiu como professor, jornalista e escritor. Escreveu ao amigo Mário de Andrade (1893-1945) : “Minha situação aqui é asfixiante e besta. Ganho uma miséria como professor, e as dez pessoas da família que sustento não podem esperar pão de outra parte.”

Assim como Câmara Cascudo, o movimento modernista valorizava o regionalismo e a cultura brasileira. “Aquilo foi uma reunião de vários temperamentos, e alguns mais explosivos como Oswald de Andrade (1890-1954) , que eu chamava por ‘doido-mor’ [...] ‘Tupy or not Tupy’, dizia o doido-mor [...] que em plena confusão de 22 me abraçou com muito carinho pela minha preocupação em descrever o dia a dia brasileiro.” Em 1951, foi nomeado professor da Faculdade de Direito, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, lá permanecendo até a sua aposentadoria. “Nenhuma ciência possui maior espaço de pesquisa e de aproximação humana que o folclore. O conto popular é um documento vivo.” Publicou mais de 200 livros e opúsculos — dentre eles o Dicionário do folclore brasileiro (1954). “Era inicialmente um simples caderninho de notas para facilitar meu trabalho [...] Posso dizer que o Dicionário [...] representa, incontestavelmente, o mural das minhas habilidades no tempo e no espaço. Ali estão as minhas curiosidades, o segredo, a alegria da minha preferência.” Câmara Cascudo é considerado o maior folclorista brasileiro. A casa na qual ele viveu grande parte de sua vida, no centro de Natal, abriga o Ludovicus e foi aberta à visitação pública em 2010 para divulgar a vida e a obra do cientista potiguar. A dedicação de Cascudo ao folclore foi estampada nas notas de 50 mil cruzeiros, que circularam entre 1991-94.

(Texto extraído do livro Vox: arte, cultura e ciência no Brasil)